Uma das “características exóticas” da língua alemã é a posição do verbo em frases subordinadas; o verbo conjugado se encontra obrigatoriamente ao final da sentença. É isso que cria o tal “efeito mestre Yoda” quando a traduzimos literalmente. Por exemplo:
Ich finde, dass er recht hat.
“Eu acho que ele razão tem“.
Estranho, não? Sem dúvida, para aprender o alemão como língua estrangeira, é preciso passar por uma fase de adaptação. O fato de o verbo aparecer somente no final da frase (subordinada) cria um momento de tensão, de desconhecimento. (Que a força esteja com você!)
Comparando (sem aspas):
Ich glaube nicht, dass er morgen anruft.
Eu não acredito que ele ligue amanhã.
Antes de o narrador finalizar a frase não sabemos o que o sujeito faz, fez ou fará, o que nos leva a concluir que o narrador também poderia ter colocado outro verbo no final, alterando completamente a ação do sujeito.
Ich glaube nicht, dass er morgen kommt.
Eu não acredito que ele venha manhã.
Ou:
Ich glaube nicht, dass er morgen zu Hause ist.
Eu não acredito que ele esteja em casa amanhã.
Pode-se dizer que escutar e ler frases subordinadas seja semelhante a um “download”. Você só entende o sentido inteiramente após ter “baixado o arquivo completo”. É preciso ficar atento, pois até o final há um momento de “suspense”.
Agora, não parece óbvio que tal peculiaridade do idioma era – e está sendo usada – como “ferramenta inevitável” de escritores de minha língua materna? Chegamos, então, ao tal Gregor Samsa, o segundo nome que consta no título deste post, e cuja história começa com uma frase subordinada bem feitinha.
Comparando as seguintes traduções:
Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de inseto.
As Gregor Samsa awoke one morning from uneasy dreams he found himself transformed in his bed into a monstrous vermin.
Lorsque Gregor Samsa s’éveilla un matin au sortir de rêves agités, il se retrouva changé dans son lit en un énorme cancrelat.
A semelhança nestas traduções é óbvia: “Inseto”, “vermin”, “cancrelat”. O foco está no que o protagonista se transformou, ou seja, o “pico” da mensagem, a última palavra é um substantivo. O verbo ficou “por aí”. Mas o que realmente deixou Gregor Samsa “alienado”, foi o fato de ele perceber que se “encontrou transformado” quando acordou na sua cama:
Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheuren Ungeziefer verwandelt.
Resumo da ópera: se Kafka tivesse colocado um outro verbo, o “conteúdo baixado” teria sido diferente. Ainda bem que não foi o caso.

