A Síria – Uma Questão Geopolítica

De Heinz Sauren – le Bohémien
Tradução autorizada e adaptada: Peter Hilgeland

Mais de dois anos atrás, a primavera árabe começou, forçando uma reorganização de poder nos países afetados. Os levantes eram considerados o início de revoluções democráticas. Com o decorrer do tempo, esse ponto de vista mudou e revelou a tendência de uma islamização pseudo-democrática. Também na Síria, uma oposição democrática parecia se rebelar contra um governante despótico.

800px-FSA_soldier_with_AK47Acontece que, na Síria, não se trata somente da manutenção do poder de uma ditadura hereditária, tampouco de uma desejada vitória de democratas sinceros. Há tantos atores envolvidos nessa guerra civil, que seus objetivos e interesses nem sempre vem à tona publicamente. O conflito se tornou uma guerra por procuração de global players da política internacional. Trata-se de um conflito entre arqui-inimigos religiosos, de interesses estratégicos dos super-poderes e de Israel, da guerra contra o terror e da tentativa medíocre da União Europeia de encontrar seu lugar no palco diplomático internacional. Diante disso, os interesses e o sofrimento da população síria quase se tornam algo secundário.

As verdadeiras causas da guerra se baseiam nas decisões politicas em Washington, Moscou, Bruxelas, Ancara, Teerã e Tel Aviv, sendo o foco uma questão superior: Quem assumirá a supremacia na península árabe? O “clube elitista” dos estados já considerados global players e alguns “aspirantes” vigiam suspeitosamente aqueles que um dia poderiam enfrenta-los à altura. Todas as medidas necessárias estão sendo tomadas para influenciar o resultado em favor próprio. Nem sempre o “clube” e os “aspirantes” colaboram, mas o objetivo nunca se perde de vista. Embora o conflito continue limitado à península árabe, seu resultado mudará a estrutura da política mundial de poder. Aquele que decidir o conflito a seu favor estará no controle de uma das regiões mais sensíveis do mundo, ampliando sua esfera de influência de forma abrangente.

Como sabemos existem duas alianças opostas. A aliança a favor de Assad, representada pela Rússia, pelo Irá e, por parte, pelo Líbano e a aliança contra o regime atual que apoia os rebeldes: os Estados Unidos, a Turquia e a União Europeia.

Embora seja um inimigo declarado do regime de Assad e aliado dos Estados Unidos, Israel assume um papel diferenciado neste conflito. Se islamistas radicais assumissem o poder na Síria, o governo israelense consideraria o regime de Assad um mal menor.

Os Estados Unidos e a busca pelo status quo

Os Estados Unidos se consideram a força protetora de Israel e, devido ao forte relacionamento bilateral com a Arábia Saudita, entendem-se como o poder dominante na península arábica. Tal domínio é notado cada vez mais pelos estados árabes; é uma causa determinante das divergências políticas e culturais na região. No fundo, os Estados Unidos não podem estar interessados em mudanças significativas. Por isso, há pouca motivação do governo americano de se envolver no conflito. A motivação restante se baseia na atitude do contraente global, da Rússia. Washington teme a influência crescente de Moscou nesta região. (Como se fosse o único palco diplomático no qual os rivais geopolíticos se encaram … )

Nesse contexto, os Estados Unidos são a única potência na região capaz de impedir quase qualquer tentativa de mudança através de intervenções militares. Essa ultima ratio garante a segurança e a existência do estado de Israel. Mesmo se os Estados Unidos quisessem se retirar completamente dos problemas da região, qualquer mudança de constelações políticas e de poderes os afetará. Ganhar tempo é o fator decisivo e crítico para o governo norteamericano no conflito na Síria. Cada dia sem mudança real de poder é uma vantagem.

A Rússia, o contraente da aliança ocidental

Após da queda do império soviético nos anos 1990 e da perda de influência no leste Europeu, a Rússia se fortaleceu novamente e voltou a mostrar ambições de se re-estabelecer como superpoder mundial. A expansão estratégica da sua área de influência é um objetivo declarado da política externa russa. Sua única base naval na área mediterrânea se localiza na Síria. Do ponto de vista russo, a preservação desta base é essencial para garantir suas reivindicações ao poder na região. Por isso, o governo em Moscou é a favor de manter Assad no poder, embora não queira uma escalada militar do conflito, cujos resultados seriam incalculáveis.

No entanto, o fornecimento de armas russas para a Síria não é algo novo. Existem contratos bilaterais há muitos anos. Atualmente, o equipamento velho, inválido ou destruído está sendo substituído por material novo. Tais contratos e alianças também são normais nas relações entre outros estados. Moscou simplesmente está cumprindo contratos que já existem há muito tempo e que estão de acordo com o direito internacional.

Recentemente, o foco polêmico da mídia internacional era na entrega de mísseis anti-aéreos e de aviões caça do tipo MiG 29. Como diz o nome, os mísseis servem para destruir alvos aéreos. Os rebeldes não possuem aviões. E os MiG 29 são caças de supremacia aérea. Embora o governo Assad possa usá-los contra posições rebeldes, ele não precisa pois dispõe de outros tipos de aviões para tanto. De fato, o MiG 29 não significa um perigo sério para os rebeldes, mas sim para os caças modernos dos Estados Unidos e de Israel, pois dificulta os planos de ataque destes países. No fundo, a Rússia está criando uma certa igualdade de armas, isso não entre o governo sírio e os rebeldes, mas diante de uma possível intervenção aérea de fora.

De qualquer forma, o governo russo não abrirá mão de seus interesses no palco diplomático.

O Irã ou “O inimigo do meu inimigo”

No palco internacional, o Irã é largamente isolado. No entanto, o país mantém relações fortes com a milícia libanesa Hizbollah. O apoio logístico desse grupo militante não é somente tolerado pelo regime Assad, mas também organizado no próprio território sírio. Uma perda da “ponte síria” poria em risco a existência da Hizbollah, diminuiria a pressão ao arqui-inimigo iraniano Israel, isolaria Teerã completamente e facilitaria um ataque israelense ao Irã. Por isso, o país apoia há um bom tempo o regime Assad com logística, know how e tropas.

Do ponto de vista iraniano, a guerra na Síria também é uma luta religiosa contra a influência crescente dos sunitas que representam a maior facção dos rebeldes. Embora Assad não seja xiita, (a grande maioria dos iranianos são xiitas), a Síria e o Irã se sentem conectados fortemente por causa do seu arqui-inimigo comum: Israel. No território libanês, a Hizbollah se estabeleceu como um estado independente, agindo na fronteira norte do Israel, sem temer quaisquer restrições, lutando também ao lado do regime de Assad. É óbvio que a situação da Hizbollah iria mudar gravemente se os sunitas assumissem o poder em Damasco.

Demonstração do poder no Bósforo

Sem dúvida, a Turquia também está com um pé no conflito. A província de Hatay é uma enclave. Localizada na fronteira da Síria, sua população se identifica mais com os árabes que com os turcos. Existem vários e diversos laços culturais e familiares determinantes. O governo turco reage a esse “clima de colaboração” de forma ostensíva, reivindicando seu poder na província, exigindo, por exemplo, sistemas anti-aéreos Patriot, (operado por militares alemães e holandeses), dos seus aliados da OTAN para justificar sua posição no palco internacional. Oficialmente, estes sistemas estão direcionados contra a Síria, mas também servem para fins de política interna. E, além de estabelecer campos de refugiados, Ancara também abre a fronteira unilateralmente para fornecer armas para os rebeldes.

Resta dizer que em Hatay também se localiza uma grande base aérea dos Estados Unidos que, provavelmente, desempenharia um papel importante no caso de uma intervenção militar na Síria; uma chance para o governo turco de se livrar de um concorrente politico e militar na região.

Israel ou o “Catch 22”

No fundo, Israel está em guerra com todos os partidos envolvidos no conflito – abertamente ou clandestinamente. Não importa quem chegará ao poder, ele certamente será um adversário na região. O único interesse de Israel é diminuir a máximo as forças de um possível futuro inimigo. Por isso, o estado judaico não apoia nenhum dos adversários na Síria. Ao mesmo tempo, mantém a opção de atacar qualquer um deles, se o ataque estiver de acordo com seus próprios interesses.

Do ponto de vista israelense, o pior cenário deveria ser uma queda do regime Assad, seguido por uma islamização radical do pais.

O caos europeu e um conto de fada chamado “democracia”

A União Europeia criou seu próprio papel nesse conflito. Embora alguns membros da União possuam um certo peso na área diplomática, a “voz” da organização como um todo não era considerada significativa em relação a decisões políticas no nível global. Apesar do consenso de condenar o regime de Assad, não existe uma coordenação verdadeira para lidar com o problema. Enquanto a Grã-Bretanha e a França admitiam fornecer armas para os rebeldes, a grande maioria dos membros da União assumiu a posição de observadores.

O efeito desejado de que as revoluções árabes conseguiriam derrubar tiranos e iniciar processos democráticos (só bastava o povo se levantar), já falhou no caso da Líbia: tirar Gaddafi do poder só foi possível após a instalação de uma zona de exclusão aérea e o envio de tropas terrestres. Gaddafi realmente foi desposto, mas a situação na Síria é outra. Os governos europeus não consideraram isso e declararam Assad como alguém politicamente morto, cortando todas as relações com Damasco. Assad, no entanto, continua no poder e a União Europeia perdeu a oportunidade de influenciar o rumo do conflito por meios diplomáticos.

Tudo indica que, embora as revoluções árabes tenham sido iniciadas por movimentos democráticos, os mesmos não possuíam o apoio suficiente das populações para que forças reformistas seculares pudessem participar dos novos governos eleitos de forma significativa. O resultado real, como no Egito, foi o início de um processo de islamização radical. O fato de os diplomatas europeus não terem reconhecido a islamização não é somente uma grande falha da política externa europeia, como também levou-a a buscar, tardiamente, uma solução de uma crise à beira da insignificância.

A oposição síria está retraída, perdeu quase todos os pontos estratégicos e justifica tal situação alegando a ausência de apoio do exterior e o envolvimento da Hizbollah no conflito. Mas as razões são outras. Os grupos democráticos que iniciaram o levante se tornaram uma minoria insignificante. As ações militares estão sendo realizadas por uma variedade de grupos que também são inimigos entre si. Alguns deles oprimem a população da mesma forma como o regime Assad – ou de forma pior. Os donos da guerra estão lucrando. Clãs de famílias redefinem suas áreas de poder e a charia se espalha em áreas supostamente “liberadas”.

Sob o regime de Assad, para as minorias religiosas (os xiitas, alevitas e cristãs), a liberdade de viver e praticar suas crenças é garantida. (Assad é alevita). Algo elas temem perder, caso o regime seja desposto. Não houve, em nenhum momento, uma maioria da população síria que tivesse apoiado o levante. Ao contrário, uma maioria da população sente seu futuro ameaçado por causa da oposição, sente-se até ameaçada pessoalmente. Embora, para eles, Assad represente a falta de liberdade política e uma ditadura que não tolera oposição, ele também é visto como garantia de prosperidade e segurança, (comparado a outros países da região), de liberdade religiosa e unidade nacional.

Embora a oposição desperte a esperança de mudança política, ela também traz a segregação étnica, a desordem social e a perseguição religiosa. O problema da oposição não é a falta de armas ou a falta de apoio internacional, o problema é ela mesma. Assustando a própria população, ela infelizmente corresponde, por parte, àquela imagem que é divulgada pelo governo Assad: “bandidos” e “terroristas”.

Uma questão de soberania?

Qualquer que seja a solução do conflito, ela só será permanente se for determinada pelo próprio povo sírio, na base de seus próprios interesses. Assad é um déspota e existem bons motivos de estar a favor da sua queda. Mas, diante da situação atual, considerando os diversos protagonistas internacionais que impõe mais seus próprios interesses do que daqueles da população síria, o governo Assad permanece uma opção. Não é a melhor opção, sem dúvida, mas talvez seja a questão da soberania do país para evitar que a Síria enfrente o mesmo destino como o Afeganistão e o Iraque.

Parece que o princípio básico do direito internacional de não intervir nos assuntos internos de um estado, está perdendo cada vez mais a sua importância, embora se trate de uma ferramenta indispensável para evitar guerras entre as nações soberanas.

Heinz Sauren se formou em direito e filosofia, é autor, colunista e ensaísta. Ele publica no magazine político alemão le Bohémien e no seu blog Freigeist.

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