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Religioso?

Eu não encontrei expressão melhor que “religioso” para a confiança [que tenho] na natureza racional da realidade, na medida em que é acessível à razão humana. Quando falta esse sentimento, a ciência degenera em um empiricismo sem inspiração.

Albert Einstein, em carta a Maurice Solovine, em 1 de janeiro de 1951.

Declaração da Independência Reloaded

Jogue fora todos os medos e preconceitos servis, sob os quais as mentes dos fracos se curvam. Coloque a razão firmemente no trono dela, e apela ao tribunal dela para todos os fatos, todas as opiniões. Questiona com coragem até a existência de Deus; porque, se houver um, Ele deve aprovar mais o respeito à razão que o medo cego.

Thomas Jefferson, em carta a Peter Carr, 1787

Por falar em “Deus”

De Paul Tillich, “Über die Tiefe”
Tradução: Peter Hilgeland

Todas as coisas visíveis possuem uma superfície. A superfície é aquela face que percebemos à primeira vista. Quando as vemos reconhecemos aquilo que elas parecem de ser. Porém, se nos orientamos a partir do que as coisas ou os seres humanos parecem de ser, nós nos decepcionamos. Nossas esperanças serão aniquiladas. Por isso, tentamos penetrar a superfície, ir além das camadas exteriores, para podermos reconhecer as coisas como elas realmente são. Por que os seres humanos sempre estão em busca da verdade? Eles a buscam pelo fato de que aquela “verdade” que não as decepciona se encontra embaixo das camadas da superfície, na profundidade. É por isso que o ser humano começou [pelos meios da meditação, da filosofia, da ciência, e outros] a desvendar camada por camada.

Um nome, ou seja, uma palavra que descreve esta profundidade infinita e inesgotável é “Deus”. Eis o verdadeiro significado de “Seu” nome. Portanto, se esta palavra faz pouco sentido pra você, traduza-a, use expressões diferentes como “o sentido da minha vida”, “a origem da minha existência”, “aquilo que afeta a minha vida de forma imediata”, “aquilo que levo a sério, sem dúvida alguma” e assim por diante. Aliás, se você fizer isso, provavelmente precisará esquecer muita coisa que você aprendeu sobre “Deus”, talvez até a palavra em si. Pois, se você reconhece que uma palavra como “Deus” significa profundidade, você consequentemente sabe algo sobre “Ele” [ou “aquilo”, a despeito do nome que escolher].

Neste caso, você não poderá se intitular “ateu” ou “descrente”, pois não será mais capaz de pensar ou dizer: “A vida não faz sentido, a vida é fútil, a (minha) existência em si é mera superfície”. Só se você pudesse falar de si mesmo nesses termos, com plena sinceridade, você seria um “ateu de verdade”.

Conhecer a profundidade significa conhecer [algo de] “Deus”.

Thiago Lobo: o ilustrador sobre o cético (2)

Como já disse, queria comentar uma segunda imagem do blog do Thiago Lobo. Ela contém um “argumento clássio” dos criacionistas:

Bom, à primeira vista, tal argumento parece fazer sentido. Como é possível surgir algo tão complexo, como o universo e a vida no nosso planeta, sem “projeto” algum? Pois é. O problema é que a mensagem acima distorce a teoria da evolução. Nem o próprio Darwin afirmaria que a vida é o resultado de um mero acaso.

O acaso puro criaria um caos sem sentido. Existem as leis físicas também. Aliás, somente elas criariam algo sem sentido de outra forma: um tipo de automatismo que não corresponderia com a dinâmica do nosso universo.

É a combinação destes dois fatores que é capaz de efetuar mudanças e fazer a vida progredir. E isso é um processo permanente.

Eis o “projeto”.

Neste contexto, não importa se você é ateu, cético ou crente.

Thiago Lobo: o ilustrador sobre o cético (1)

Já que não parece ser possível deixar comentários no blog dele, permitam me fazer isso por aqui. Se trata de duas imagens. Eis a primeira:

Então:

O cara por trás do telescópio é uma figura e tanto.

Primeiro, porque ele compara o universo com um relógio. Um relógio é uma máquina. O universo não é uma máquina. Uma máquina não produz algo tão importante como o acaso. E, veja bem, existe uma outra palavra para o acaso neste contexto. É chamado de “liberdade”.

Segundo, porque a fascinação dele fala por si. Ser fascinado por algo não tem nada a ver com a racionalidade com qual ele “explica” aquilo que observou. Se trata de uma contradição tipicamente humana.

E o outro cara? Ele parece tão feliz e equilibrado, não é?

Sinto muito, mas ele é um ignorante, porque ele não percebe os verdadeiros motivos da fascinação do primeiro cara. Empatia zero! Embora ele tenha feito uma pergunta interessante, ele fez a mesma somente para poder confirmar aquilo que ele já pensava antes. Invés de entrar na matéria, ele se afasta com aquele sorriso de crente. Invés de fazer mais perguntas, ele vai embora, continuando no mundo fechado dele, abandonando a chance de um discurso pra valer.

Resumo: é o encontro de duas crianças.

Sobre um Deus aposentado

Ja faz um bom tempo que
Aquele homem velho
De barba branca
Se aposentou

Porque será

Pois é

Não soube lidar
Com a presença
De um outro cara
Chamado

Darwin

Um Deus se foi
Mais um
Um de tantos

Se aposentou
Se retirou

Às pinturas antigas

Maravilhosas

Das igrejas

Daquele mundo distante
Da nossa imaginação

E agora …

Hora do Planeta Reloaded

A Hora do Planeta foi considerada um ato simbólico no qual governos, empresas e a população de todo o mundo seriam convidados a demonstrar sua preocupação com o aquecimento global e as mudanças climáticas. A idéia de apagar as luzes, possível em todos os lugares do planeta, teve o intuito de incentivar as pessoas a refletirem  sobre o tema ambiental, ou seja, o desperdício de energia e recursos naturais.

Para ser honesto: não liguei. Não apaguei as luzes. Esqueci a hora. Moro em São Paulo, capital. E nem percebi mudança alguma naquele horário que eu poderia ter lembrado. Mas não foi por causa disso. Na verdade, achei ridículo.

Mesmo assim, considero-me uma pessoa consciente. Economizo energia em casa, raramente uso o carro, detesto o desperdício de água, e por aí vai! Preocupo-me com tudo isso. Seriamente.

Seja como for, a Hora do Planeta, o ato simbólico, foi-se. Foram-se os comentários na televisão, nos journais e nas páginas da internet.

E agora? Agora é como sempre. De fato, toda hora é a “hora do planeta”. Por enquanto, é a hora do desmatamento, da queima de combustíveis fósseis, da poluição e tudo mais. Infelizmente. E, temo que tais “atos de conscientização” não resolvam o problema. As pessoas não ligam muito, e, se ligam, muitos delas agem de maneira hipócrita. Ou zombam disso. Earth Hour foi um evento. Nada mais. Fogo de palha.

Enquanto isso, os verdadeiros fogos continuam a queimar: nas usinas, nos motores dos inúmeros veículos, e na Amazônia.

Os ufólogos não fazem idéia …

A todo momento somos bombardeados com notícias, livros e filmes sobre seres de outros planetas. Existirá uma verdade por detrás de tudo isso? Além dos rumores e do wishful thinking?

Posso falar?

Não é uma coisa simples vencer as distâncias interestelares. A estrela mais próxima está a meros 5 anos-luz, e no entanto, ninguém poderia chegar vivo lá, com nossa melhor tecnologia.

Pior, existem entre 100 e 400 bilhões de estrelas só na nossa galáxia, a Via Láctea, que é uma galáxia gigante. Mas destes bilhões de estrela, a maioria está perto do núcleo galáctico. E daí? E daí que lá é um ambiente onde há muita radiação, principalmente na forma de raios gama. Os raios gama são os antibióticos cósmicos. Um disparo de raios-gama que atinja a Terra com a potência suficiente, e nem mesmo as bactérias que estão em solo profundo sobrevivem: nada, nem vírus, nem bactérias, nenhuma forma de vida sobrevive. Então é praticamente tempo perdido procurar vida lá. E as estrelas próximas, afinal de contas, o Sol está aqui, e estamos nós aqui orbitando o Sol, vivos. Bom, encontramos entre 200 e 300 planetas orbitando estrelas próximas. Só que são planetas parecidos com Júpiter e muito pertos da estrela deles. Em outras palavras, é praticamente impossível haver vida neles. Parece que tem um ou dois planetas que talvez pudessem abrigar vida. Talvez. E estão tão distantes que uma nave terrestre levaria milhares de anos para chegar lá.

Agora o problema de chegar lá. O único jeito parece pegar um embalo aqui no Sistema Solar e ir só no “embalo”, por que para ir acelerando para lá, é preciso combustível. Muito combustível. Tanto combustível, que ficaria impraticável levar tanto combustível. Então esquece a idéia de usar combustível.

Sobre as visitas de alienígenas, isto é risível. O Zecharia Sitchin é um trambiqueiro, e o von Däniken era um trambiqueiro (ele chegou a forjar um vaso com desenhos que apoiariam a sua hipótese de “deuses astronautas”, qualquer um que dê fé a semelhante fraude não dá nenhum valor ao próprio tempo). Não há uma única prova que alguma vez tenhamos sido visitados por alienígenas.

A idéia que os alienígenas teriam uma tecnologia avançada e por isto fariam estas viagens que o homem sequer pode sonhar tem uma prova contra: como é que pode uma civilização com tecnologia tão avançada se comportar tão mal e dar demonstração de uma medicina tão arcaica e medieval? Ora, colocar sensores em pessoas? Ou fazer mutilação em gado? Que espécie de cientistas são eles? Parecem crianças com facas afiadas e nenhuma noção de ética. E sem nenhum, absolutamente nenhum conhecimento de medicina, microbiologia, genética e por aí vai.

Cruzamento entre alienígenas e seres humanos? Que ridículo! Como é que haveria compatibilidade bioquímica, que dirá genética, entre seres que evoluíram em planetas diferentes?

Os seres humanos seriam alienígenas? Outra idéia que cai por terra com a genética comparada.

Todas estas idéias são muito interessantes, mas quando a gente examina com cuidado os fatos, quando a gente procura provas de que alguma coisa aconteceu, não encontra nada, ou pior, encontra provas que as coisas aconteceram de outra forma. Se os ufólogos fossem um pouco mais racionais, iriam abandonar esta idéia falida, e partir para outra. Por exemplo, precisamos colocar nossa própria espécie no espaço.

Mas os ufólogos gostam de agir como o “inimigo na trincheira”. Parecem decididos a espezinhar, a desfazer, a negar e a subestimar a capacidade humana. E a capacidade humana é a única coisa que nos separa da extinção. Nenhum alienígena virá para salvar a humanidade.

Finalmente, quero dizer que eu não duvido que exista vida em outros lugares do Universo. Eu só acho que nunca faremos contato. No máximo ouviremos uma transmissão como as que nós mesmos fazemos, uma voz fossilizada, vinda do passado, de uma civilização que já não existirá quando nós ouvirmos sua mensagem. O mesmo destino que acontecerá com as nossas mensagens: se forem ouvidas, será muito depois de nós mesmos não existirmos mais.