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Porque a PEC 241 esconde um grande segredo. E um enorme perigo:

O Brasil gasta muito mais do que arrecada. Por isso nosso país está sempre endividado. Para fechar a conta, o governo tem que tomar dinheiro emprestado, pagando juros gigantes. Aí a dívida só aumenta. E por causa disso falta dinheiro para investir no que é fundamental. E como os juros são altos, as empresas também não investem, e o desemprego só aumenta. É um círculo vicioso, de que o Brasil precisa escapar.

Fácil concordar com isso tudo. E fácil concordar que a solução é uma lei que proíba o governo de gastar demais. Essa é a premissa da Proposta de Emenda Constitucional 241, a PEC 241. É o grande projeto do governo no momento. Muita gente respeitável garante que se ela não for aprovada, o país quebra. É o que o ministro da fazenda, Henrique Meirelles, falou na TV. Temer não está poupando esforços para aprovar a PEC. E ela tem de fato grande chance de ser aprovada.

O que exatamente diz a PEC 241? Que nos próximos 20 anos, até 2036, o governo do Brasil só poderá gastar exatamente o que gasta hoje. O único ajuste permitido será o da inflação anual. É isso que foi votado e aprovado pelo Congresso.

Só tem um probleminha. Que vai virar um problemão.

O Brasil é um dos países que menos investe em saúde. O gasto do poder público em saúde por habitante é mais ou menos R$ 1400 por ano – dá menos de quatro reais por dia. Nos EUA é o equivalente a R$ 15 mil. Na Noruega, o país com melhor padrão de saúde do planeta, o governo investe R$ 28 mil por ano, por cidadão. Abaixo do Brasil, só os países mais miseráveis da África.

E o Brasil é um dos países que menos investe em educação. O gasto anual do poder público com educação é de aproximadamente R$ 10 mil por aluno do ensino básico. Quanto é nos países mais desenvolvidos? Três vezes mais. Por isso é que eles são desenvolvidos… e a gente não.

Ou seja: se a gente aprovar a PEC 241, e continuar investindo essa mesma miséria, o Brasil não vai pra frente. Aliás, vamos piorar muito.

Porque a população continua crescendo. Hoje somos 206 milhões de brasileiros. Em 2036 seremos quase 240 milhões de pessoas. Mais gente dividindo o mesmo investimento em saúde e educação. Então, na prática, o investimento por pessoa vai cair.

Vai piorar porque a população do Brasil está envelhecendo. E quanto mais velho, maior o custo com saúde.

Vai piorar porque a tendência global para as próximas décadas é de criação de empregos muito menor. Os empregos tradicionais estão cada vez mais sendo substituídos pelas máquinas e computadores. No Brasil, situação ainda mais grave, porque temos milhões de jovens com uma educação tão ruim que literalmente não servem para nada. Hoje o Brasil já é campeão de “nem-nem”, jovens de 15 a 24 anos que largaram de estudar, e não trabalham, porque não têm qualificação nenhuma…

Então teremos uma porcentagem muito maior de brasileiros que não terão condição de pagar seguro saúde, nem escola particular, o que vai sobrecarregar ainda mais os sistemas públicos. E inevitavelmente as cadeias.

Não vamos nem citar outras questões prementes do país. Por exemplo, o fato de termos apenas metade das casas do país ligadas à rede de esgoto. A situação caótica dos transportes, a situação assustadora da violência. Não vamos nem citar os desafios cada vez mais presentes na área de meio-ambiente, de poluição, de mudança climática…

Vamos ficar só em saúde e educação. É muito claro, os números não mentem. O Brasil precisará investir muito, muito mais nas próximas décadas, para diminuir o descalabro atual. E não investir menos, que é o que a PEC 241 propõe.

Mas se é assim, porque essa campanha tão forte a favor da PEC 241? E porque ela tem grande chance de ser aprovada?

Porque para o Brasil fechar as contas, ou se arrocha os pobres, que é o que a PEC 241 propõe. Ou se cobra impostos dos ricos. Que é o que os outros países fazem.

No Brasil, pobre paga muito imposto, cobrado de maneira indireta em cada produto que compra. Classe Média paga muito imposto, muito imposto de renda, e ainda se aperta para bancar do bolso seguro saúde e escola particular. Tanto pobres quanto classe média pagam também um mundo de juros, embutidos em tudo que consumimos

E os ricos pagam pouquíssimo imposto. Tanto na pessoa física, como na jurídica. No Brasil os ricos pagam pouquíssimo imposto sobre suas propriedades, suas fazendas, seus investimentos financeiros. Pagam pouquíssimo imposto sobre as heranças que deixam. Muito, mas muito menos que nos outros países.

E as grandes empresas também pagam pouquíssimo imposto. Existem mil maneiras de escapar, se você tem recursos suficientes. Fora que as grandes empresas no Brasil se financiam como? Pegando dinheiro emprestado do BNDES, ou seja, dinheiro público, a juros bem suaves.

Os ricos brasileiros têm uma vantagem dupla. Eles pagam pouquíssimo imposto. E têm os maiores rendimentos financeiros do planeta Terra, sem risco nenhum. Como? Justamente emprestando dinheiro para o próprio governo…

É importantíssimo para os ricos brasileiros que a PEC 241 seja aprovada. Para que a conta desse ajuste seja pago pela classe média e pelos pobres, e não por eles, os grandes empresários, grandes banqueiros, grandes fazendeiros. Que é, claro, o grupo que tem mais poder. E mais poder tem para eleger políticos e influenciar a opinião pública. Em qualquer época, em qualquer governo, de qualquer partido.

O resultado da aprovação da PEC 241 será aumentar a transferência dos recursos de 99% da população para os bolsos de 1% de milionários. Espremer ainda mais o povo, para que os super ricos ganhem ainda mais, e sigam pagando pouquíssimo imposto. Esse é o perigo que corremos: condenar nosso país, nosso povo a um atraso infinitamente maior que o atual.

O Brasil precisa fechar as contas, sim. Mas temos que fazer como fazem os países que se desenvolvem. Precisamos investir na educação, na saúde, na segurança, na infraestrutura. Para isso é preciso dinheiro. E para isso é preciso taxar com justiça todas as faixas da população. Proteger ao máximo os mais necessitados. Cobrar moderadamente a classe média. E taxar com vontade os milionários.
Isso faz sentido em outros países. Faria sentido no Brasil. E mais que isso: faria justiça. O que não faz nem sentido, nem justiça, é a PEC 241.

André Forastieri, LinkedIn, 7 de Outubro de 2016

Quanto a questão da dívida pública, é o grande ralo para onde vão os recursos. Logo “o Haiti será aqui”? E a Grécia também?

Eba! Aprovada no primeiro turno … (Fonte: Folha de São Paulo)

Falls es jemanden interessieren sollte …

… was gerade wirklich in Brasilien abläuft, dem sei der unten verlinkte Artikel empfohlen. Eine ganz gute Zusammenfassung, die auf die Hintergründe der aktuellen politischen Krise und damit auch auf das gerade angelaufene Verfahren zur Amtsenthebung der Präsidentin eingeht. Lohnenswerte Lektüre.

Zum Artikel

Sobre um circulo invisível e a opinião pública

A capacidade da percepção humana não é tão eficiente quanto muitos de nós tendem a acreditar, e muito menos ainda ela é capaz de obter uma impressão completa de algo.

Por exemplo: quando você se concentra no ponto vermelho da imagem seguinte, é possível observar como o círculo cinzento fosco parece sumir. Somente através do movimento dos olhos, ou seja, só quando você desfoca do ponto vermelho, o circulo ao redor volta a aparecer no campo de visão.

circuloinvisivel

Bom, no caso da imagem se trata de uma ilusão ótica que foi induzida fisiologicamente. Mas ela é um ótimo exemplo de como funciona a estrutura da percepção humana em geral.

Quando somos expostos na mídia a um fragmento chamativo da realidade e forçados ou interessados a nos concentrarmos neste detalhe, os aspectos menos sensacionalistas da realidade tendem a sumir da nossa percepção. Por isso, qualquer opinião que se forma sobre uma notícia tende a ser incompleta, embora o envolvido acredite que tenha uma visão geral e objetiva do assunto.

Daí surgem – por grande parte – as polêmicas, as receitas fáceis para problemas complexos.

Pense nisso, na próxima vez que você assistir às notícias em rede nacional ou quando curtir ou comentar um post nas redes sociais.


A maior parte deste texto é a tradução adaptada de trechos de um post em Alemão: Elias S., obrigado pela inspiração!

In Memoriam

CC BY-SA 2.0 DE Hans Weingartz

CC BY-SA 2.0 DE Hans Weingartz

Wenn man als junger Mensch aussah wie ein Hippie und sich einigermaßen treu geblieben ist, sieht man als alter Sack halt aus wie ein Penner und nicht wie Joschka Fischer.

Harry Rowohlt, 27.03.1945 – 15.06.2015

“Dilma ou Aécio? Diga-me em quem votas e sofra minha ira …”

dilmaaecio

Do ponto de vista de um psiquiatra.

P. S.
Já faz um bom tempo que vivo no Brasil mas não me lembro de a sociedade brasileira estar tão acirrada assim para uma eleição.

Jesus …

… foi um anarquista espiritual sem teto que protestava contra a hipocrisia da igreja do seu tempo, se importava com criminosos, prostitutas e outros marginais, pregava a tolerância e a empatia, praticava o direito universal à assistência médica sem cobrar pela mesma, estava a favor da redistribuição da riqueza e duvidava seriamente que uma pessoa rica fosse capaz de encontrar paz na vida eterna.

Em troca, foi acusado e preso por subversão, condenado num tribunal injusto e populista, vaiado por uma multidão alucinada, torturado e executado por crimes contra o estado.

Agora é sua vez: explique-me por que Jesus votaria num candidato da bancada evangélica. Fico no aguardo.

O estranho Mujica no desconcertante Uruguai

Mujica4c-e1400869625507-120x80Diz que a democracia e o socialismo são compatíveis, mas com a condição de que um não engula o outro. Diz que o que mais importa destacar de seu mandato é a luta contra a pobreza e a indigência, e o crescente clima de estabilidade política e confiança que vem atraindo os investimentos estrangeiros. Pergunta se queremos um uísque, diz que não teremos outro remédio senão voltar à economia produtiva, e que neste terreno o Uruguai está muito bem situado, pois tem uma excelente produção de lácteos, de carne, de cereais. Diz que produzem trigo, soja, que exportam arroz, que são bons vendedores de carne de vaca, que exportam peixes pois comem muito pouco, que possuem um mar precioso mas têm vivido de costas para ele já que são descendentes de galegos. Diz que fala muito com os chineses, que são seu principal cliente, que compram toda sua soja e estão aumentando sua presença, que nas campanhas eleitorais as bandeiras são todas chinesas. Diz que o problema da Europa é ter-se descuidado da economia produtiva, subordinando-a a engrenagem financeira, e daí a imagem da cauda que move o cachorro, quando o importante é o cachorro…

Trecho de um artigo por Juan José Millás. O escritor espanhol foi a Montevidéu para acompanhar o cotidiano do presidente uruguaiano, entrevistar o mesmo e descrever suas impressões.

Boa Viagem!

Texto original: Matthias Eberling
Tradução autorizada: Peter Hilgeland

Estamos tão acostumados com a aviação como meio de transporte que aceitamos uma viagem acima das nuvens como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas, na verdade, dentro de um avião, nós nos encontramos numa situação fora do comum: estamos a quase dez mil metros acima do solo, lá fora as temperaturas são baixíssimas e nos deslocamos através do “nada” a uma velocidade de novecentos quilômetros por hora. Enquanto assistimos a um filme e nossos filhos abusam dos smartphones, esquecemos completamente a artificialidade do lugar. A pressão da cabine protege nosso corpo, o ar condicionado nos aquece, um programa de computador conhece o trajeto e guia o avião. Não somente esquecemos nossa fragilidade neste ambiente, como também esquecemos quão dependente somos. Nestas alturas, além de simplesmente congelar e cair feito uma pedra de gelo, também morreríamos de fome, pois acima das nuvens nada cresce e não há água para beber. Dependemos da tripulação que nos alimenta e instrui, vivemos dos alimentos compartimentalizados que o avião armazena. Também não podemos sair do avião durante a viagem. Porque querermos chegar a outro lugar em altíssima velocidade, nós nos entregamos à dependência de uma organização que nos protege, cuida e, ao mesmo tempo, nos domina.

flowDe volta ao solo, a situação não é diferente. Estamos tão habituados à civilização moderna que a enxergamos da mesma forma: como a coisa mais natural do mundo. Em casa, a geladeira está cheia porque as estantes dos supermercados estão repletas. Nossos carros e caminhões circulam sem parar porque há combustível suficiente nos postos de gasolina. A água limpa sai de qualquer torneira, seja ela fria ou quente; a luz elétrica está a disposição em qualquer quarto, basta acioná-la. O dinheiro flui através das nossas contas e através das nossas carteiras e mantém em movimento o círculo vivo da necessidade e da satisfação. Nós olhamos os monitores dos nossos computadores e os displays de outros aparelhos eletrônicos como se olhássemos através da janelinha de um avião. O que aconteceria caso a parede fina da cabine se rompesse? Caso o salário, a renda, não fosse mais transferido e as prateleiras dos supermercados não fossem mais abastecidas? Os relatos advindos da Síria e da Ucrânia nos transmitem uma ideia dessa dependência e da fragilidade na qual nos metemos. Nós nos tornamos apenas passageiros faz tempo. Nós nos entregamos às mãos de grandes organizações, de um sistema que exige um preço [alto] para a nossa proteção. Estamos sendo vigiados nos aeroportos, na internet – e, através dela, na vida cotidiana e em nossos lares. E é tarde demais para sair.

Matthias Eberling é cientista político e escritor, viveu em Berlim de 1991 a 2013 e trabalhou como consultor político por vários anos. Sua última novela policial “Berliner Asche” (“Cinza Berlinense”) foi publicada no ano passado.

In Memoriam

Willy Brandt (Herbert Ernst Karl Frahm), 18.12.1913 – 08.10.1992 - http://www.flickr.com/photos/philgeland/

Willy Brandt / Herbert Ernst Karl Frahm, 18.12.1913 – 08.10.1992 – Photo: http://www.flickr.com/photos/philgeland/

P.S.
No need to understand German. Not really. Shortest interview ever:

Descanse Em Paz!

Nelson Mandela

fonte: thetimes.co.uk


Vale a pena lembrar que tantos paises do chamado mundo livre apoiaram durante décadas o regime do apartheid. Se, naquela época dependesse deles (países cujos líderes atuais comparecem hoje à cerimônia de despedida), Mandela teria morrido na prisão, a África do Sul ficaria afundada no caos e não teria sido possível de criar a lenda de um novo “Messias”.