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Papo de Caipira? Proseando com Navegantes

Apesar da convicção que tenho de que a maioria dos que acessam a Internet acabam se familiarizando com essa incrível ferramenta que tem a pretensão (e não só pretensão!) de, ao ser acionada através de um simples toque no mouse, fazer explodir na telinha à nossa frente um mundo de informações, etc, tudo isso sem que seja preciso que tiremos a bunda da cadeira, não resisto e exponho o que se segue:

– vá lá que parte dessas informações possam ser falaciosas, impertinentes, reticentes, mentirosas e de cujas abordagens podemos até discordar frontalmente;

– vá lá que o nosso espírito curioso e investigativo junto a este mundo virtual (mas nem tanto!) nos conduza a um sedentarismo e aos prejuízos que este comportamento nos traz;

– vá lá, ainda, que esta enxurrada de páginas, blogues, sites, e-mails, canais sociais, tudo isso nos deixe, por vezes, feito baratas tontas defronte à telinha;

– vá lá, inclusive, que eu, neste momento, possa estar falando apenas de mim — do meu comportamento defronte à telinha — e de mais ninguém;

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Genésio dos Santos, caipira, nascido em 1952 em Itapetininga — SP, filho de ferroviário, tem diploma de Curso de Telégrafo, é poeta e cronista e, acrescente-se, hoje é também um bicho urbano adaptado e aprendiz de blogueiro (em suas próprias palavras).

A Aura das Palavras

A palavra possui uma aura que consiste em sua imagem escrita,
em sua sonoridade, e nas associações que ela cria dentro de nós.
Quanto mais importante e mais usual esta palavra é,
mais intensa e marcante se torna a sua aura.
Quem a destrói, está destruindo algo dentro de nós,
está tocando nos recônditos do nosso inconsciente.

Das Wort besitzt eine Aura, die aus seinem Schriftbild,
seinem Klang und den Assoziationen besteht, die es in uns hervorruft,
und je wichtiger und gebräuchlicher ein Wort ist,
desto intensiver und prägender ist diese Aura.
Wer sie zerstört, der zerstört etwas in uns,
er tastet den Fundus unseres Unbewußten an.

Reiner Kunze, “Die Aura der Wörter”, Radius Verlag Stuttgart (2004)
Tradução: Peter Hilgeland

Heinz Stein: Illustration zu dem Gedicht "Von der Inspiration" (reiner-kunze.com)

Illustration: Heinz Stein (reiner-kunze.com)

Sangue Doce

weisszucker.foodlexikon.orgSuncê tá pensando que tá miluca, filha? Mas não tá não, suncê tá é com o sangue doce. Suncê tem que pará com esse sucri. O branco, suncê esquece. O preto e o mel, só de vez em quando.

Pai José das Almas, citado no livrinho de Sonia Hirsch: “Sem Açúcar – Com Afeto”, Editora CorreCotia

Efeito Mestre Yoda

Uma das características exóticas da língua alemã é a posição do verbo em frases subordinadas; o verbo conjugado se encontra obrigatoriamente ao final da sentença. Isso que cria o tal “efeito mestre Yoda” quando a traduzimos literalmente.

Por exemplo:

Ich finde, dass er recht hat.
Eu acho que ele razão tem.

Estranho, não é? Sem dúvida, para aprender o alemão como língua estrangeira, é preciso passar por uma fase de adaptação. O fato de o verbo aparecer somente no final da frase cria um momento de tensão, de desconhecimento. Outro exemplo:

Ich glaube nicht, dass er morgen anruft.
Eu não acredito que ele amanhã ligue.

Antes de o narrador finalizar a frase não sabemos o que o sujeito faz, fez ou fará, o que nos leva a concluir que o narrador também poderia ter colocado outro verbo no final, alterando completamente a ação do sujeito. Compare as frases seguintes:

Ich glaube nicht, dass er morgen kommt.
Eu não acredito que ele amanhã venha.

Ich glaube nicht, dass er morgen arbeitet.
Eu não acredito que ele amanhã trabalhe.

Pode-se dizer que escutar e ler frases subordinadas seja semelhante a um “download”. Você só entende o sentido inteiramente após ter “baixado o arquivo completo”. Precisa-se ficar “atento”, pois até o final há um momento de “suspense”.

Espero que eu me claramente expressado tenha.

Força de Vontade

Não sei se dá,
mas tento /
(a pedra nunca é leve /
quando a gente é vento)

Marcos Bassini

Sobre a Saudade

Só em nossa língua tão rica temos uma palavra para nomear este sentimento. Talvez porque nossos ancestrais desbravadores do mar salgado navegassem transpassados por ele, bem como os que deixavam em terra. Nossos poetas cantam nostalgias e saudades com maestria, revelam a falta dos que se foram para outras terras, outros mundos, outros corações.

caravela de partida

cassia

De farra …

Quando lemos
encontramos sempre
uma letrinha
que escapou
ou uma
que entrou
de farra.

Sobre um Deus aposentado

Ja faz um bom tempo que
Aquele homem velho
De barba branca
Se aposentou

Porque será

Pois é

Não soube lidar
Com a presença
De um outro cara
Chamado

Darwin

Um Deus se foi
Mais um
Um de tantos

Se aposentou
Se retirou

Às pinturas antigas

Maravilhosas

Das igrejas

Daquele mundo distante
Da nossa imaginação

E agora …

Oráculo metido

Será que
esse peixe-tinteiro-metido-a-oráculo-da-copa idiota
tem idéia do que
os espanhóis vão colocar na paella deles
se eles forem comemorar a vitória?

Linhas Cruzadas

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.

Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.

Não te procuraste, não me procuraste –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indeferentes, cruzamos.

Passavas com o fardo da vida …
Corrí ao teu encontro.
Sorrí. Falamos.

Esse dia ficou marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.

E, desde então, caminhamos
juntos pela vida …

Cora Coralina