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Porque a PEC 241 esconde um grande segredo. E um enorme perigo:

O Brasil gasta muito mais do que arrecada. Por isso nosso país está sempre endividado. Para fechar a conta, o governo tem que tomar dinheiro emprestado, pagando juros gigantes. Aí a dívida só aumenta. E por causa disso falta dinheiro para investir no que é fundamental. E como os juros são altos, as empresas também não investem, e o desemprego só aumenta. É um círculo vicioso, de que o Brasil precisa escapar.

Fácil concordar com isso tudo. E fácil concordar que a solução é uma lei que proíba o governo de gastar demais. Essa é a premissa da Proposta de Emenda Constitucional 241, a PEC 241. É o grande projeto do governo no momento. Muita gente respeitável garante que se ela não for aprovada, o país quebra. É o que o ministro da fazenda, Henrique Meirelles, falou na TV. Temer não está poupando esforços para aprovar a PEC. E ela tem de fato grande chance de ser aprovada.

O que exatamente diz a PEC 241? Que nos próximos 20 anos, até 2036, o governo do Brasil só poderá gastar exatamente o que gasta hoje. O único ajuste permitido será o da inflação anual. É isso que foi votado e aprovado pelo Congresso.

Só tem um probleminha. Que vai virar um problemão.

O Brasil é um dos países que menos investe em saúde. O gasto do poder público em saúde por habitante é mais ou menos R$ 1400 por ano – dá menos de quatro reais por dia. Nos EUA é o equivalente a R$ 15 mil. Na Noruega, o país com melhor padrão de saúde do planeta, o governo investe R$ 28 mil por ano, por cidadão. Abaixo do Brasil, só os países mais miseráveis da África.

E o Brasil é um dos países que menos investe em educação. O gasto anual do poder público com educação é de aproximadamente R$ 10 mil por aluno do ensino básico. Quanto é nos países mais desenvolvidos? Três vezes mais. Por isso é que eles são desenvolvidos… e a gente não.

Ou seja: se a gente aprovar a PEC 241, e continuar investindo essa mesma miséria, o Brasil não vai pra frente. Aliás, vamos piorar muito.

Porque a população continua crescendo. Hoje somos 206 milhões de brasileiros. Em 2036 seremos quase 240 milhões de pessoas. Mais gente dividindo o mesmo investimento em saúde e educação. Então, na prática, o investimento por pessoa vai cair.

Vai piorar porque a população do Brasil está envelhecendo. E quanto mais velho, maior o custo com saúde.

Vai piorar porque a tendência global para as próximas décadas é de criação de empregos muito menor. Os empregos tradicionais estão cada vez mais sendo substituídos pelas máquinas e computadores. No Brasil, situação ainda mais grave, porque temos milhões de jovens com uma educação tão ruim que literalmente não servem para nada. Hoje o Brasil já é campeão de “nem-nem”, jovens de 15 a 24 anos que largaram de estudar, e não trabalham, porque não têm qualificação nenhuma…

Então teremos uma porcentagem muito maior de brasileiros que não terão condição de pagar seguro saúde, nem escola particular, o que vai sobrecarregar ainda mais os sistemas públicos. E inevitavelmente as cadeias.

Não vamos nem citar outras questões prementes do país. Por exemplo, o fato de termos apenas metade das casas do país ligadas à rede de esgoto. A situação caótica dos transportes, a situação assustadora da violência. Não vamos nem citar os desafios cada vez mais presentes na área de meio-ambiente, de poluição, de mudança climática…

Vamos ficar só em saúde e educação. É muito claro, os números não mentem. O Brasil precisará investir muito, muito mais nas próximas décadas, para diminuir o descalabro atual. E não investir menos, que é o que a PEC 241 propõe.

Mas se é assim, porque essa campanha tão forte a favor da PEC 241? E porque ela tem grande chance de ser aprovada?

Porque para o Brasil fechar as contas, ou se arrocha os pobres, que é o que a PEC 241 propõe. Ou se cobra impostos dos ricos. Que é o que os outros países fazem.

No Brasil, pobre paga muito imposto, cobrado de maneira indireta em cada produto que compra. Classe Média paga muito imposto, muito imposto de renda, e ainda se aperta para bancar do bolso seguro saúde e escola particular. Tanto pobres quanto classe média pagam também um mundo de juros, embutidos em tudo que consumimos

E os ricos pagam pouquíssimo imposto. Tanto na pessoa física, como na jurídica. No Brasil os ricos pagam pouquíssimo imposto sobre suas propriedades, suas fazendas, seus investimentos financeiros. Pagam pouquíssimo imposto sobre as heranças que deixam. Muito, mas muito menos que nos outros países.

E as grandes empresas também pagam pouquíssimo imposto. Existem mil maneiras de escapar, se você tem recursos suficientes. Fora que as grandes empresas no Brasil se financiam como? Pegando dinheiro emprestado do BNDES, ou seja, dinheiro público, a juros bem suaves.

Os ricos brasileiros têm uma vantagem dupla. Eles pagam pouquíssimo imposto. E têm os maiores rendimentos financeiros do planeta Terra, sem risco nenhum. Como? Justamente emprestando dinheiro para o próprio governo…

É importantíssimo para os ricos brasileiros que a PEC 241 seja aprovada. Para que a conta desse ajuste seja pago pela classe média e pelos pobres, e não por eles, os grandes empresários, grandes banqueiros, grandes fazendeiros. Que é, claro, o grupo que tem mais poder. E mais poder tem para eleger políticos e influenciar a opinião pública. Em qualquer época, em qualquer governo, de qualquer partido.

O resultado da aprovação da PEC 241 será aumentar a transferência dos recursos de 99% da população para os bolsos de 1% de milionários. Espremer ainda mais o povo, para que os super ricos ganhem ainda mais, e sigam pagando pouquíssimo imposto. Esse é o perigo que corremos: condenar nosso país, nosso povo a um atraso infinitamente maior que o atual.

O Brasil precisa fechar as contas, sim. Mas temos que fazer como fazem os países que se desenvolvem. Precisamos investir na educação, na saúde, na segurança, na infraestrutura. Para isso é preciso dinheiro. E para isso é preciso taxar com justiça todas as faixas da população. Proteger ao máximo os mais necessitados. Cobrar moderadamente a classe média. E taxar com vontade os milionários.
Isso faz sentido em outros países. Faria sentido no Brasil. E mais que isso: faria justiça. O que não faz nem sentido, nem justiça, é a PEC 241.

André Forastieri, LinkedIn, 7 de Outubro de 2016

Quanto a questão da dívida pública, é o grande ralo para onde vão os recursos. Logo “o Haiti será aqui”? E a Grécia também?

Eba! Aprovada no primeiro turno … (Fonte: Folha de São Paulo)

Ferida narcísica, simplesmente …

Todo aquele ódio visceral contra os bodes-expiatórios chamados Dilma e Lula (não somente nas redes sociais e na campanha eleitoral atual) também representa, me parece, um sintoma claro da ferida narcísica das classes A e B. Para os integrantes destas classes é simplesmente uma ofensa e uma invasão ver um “pobre” frequentar o mesmo shopping, usar um smartphone ou viajar de avião ao lado deles, pois, até então, o poder aquisitivo pertencia exclusivamente a eles. O importante era manter o “pobre” na condição e no lugar de “pobre”, porque tal condição lhes afirmava e garantia o privilégio do ter e com isso o do poder.

Simplesmente …

P. S.
Por falar em poder aquisitivo: alguém se lembra dos rolezinhos?

Jesus …

… foi um anarquista espiritual sem teto que protestava contra a hipocrisia da igreja do seu tempo, se importava com criminosos, prostitutas e outros marginais, pregava a tolerância e a empatia, praticava o direito universal à assistência médica sem cobrar pela mesma, estava a favor da redistribuição da riqueza e duvidava seriamente que uma pessoa rica fosse capaz de encontrar paz na vida eterna.

Em troca, foi acusado e preso por subversão, condenado num tribunal injusto e populista, vaiado por uma multidão alucinada, torturado e executado por crimes contra o estado.

Agora é sua vez: explique-me por que Jesus votaria num candidato da bancada evangélica. Fico no aguardo.

Descanse Em Paz!

Nelson Mandela

fonte: thetimes.co.uk


Vale a pena lembrar que tantos paises do chamado mundo livre apoiaram durante décadas o regime do apartheid. Se, naquela época dependesse deles (países cujos líderes atuais comparecem hoje à cerimônia de despedida), Mandela teria morrido na prisão, a África do Sul ficaria afundada no caos e não teria sido possível de criar a lenda de um novo “Messias”.

A Síria – Uma Questão Geopolítica

De Heinz Sauren – le Bohémien
Tradução autorizada e adaptada: Peter Hilgeland

Mais de dois anos atrás, a primavera árabe começou, forçando uma reorganização de poder nos países afetados. Os levantes eram considerados o início de revoluções democráticas. Com o decorrer do tempo, esse ponto de vista mudou e revelou a tendência de uma islamização pseudo-democrática. Também na Síria, uma oposição democrática parecia se rebelar contra um governante despótico.

800px-FSA_soldier_with_AK47Acontece que, na Síria, não se trata somente da manutenção do poder de uma ditadura hereditária, tampouco de uma desejada vitória de democratas sinceros. Há tantos atores envolvidos nessa guerra civil, que seus objetivos e interesses nem sempre vem à tona publicamente. O conflito se tornou uma guerra por procuração de global players da política internacional. Trata-se de um conflito entre arqui-inimigos religiosos, de interesses estratégicos dos super-poderes e de Israel, da guerra contra o terror e da tentativa medíocre da União Europeia de encontrar seu lugar no palco diplomático internacional. Diante disso, os interesses e o sofrimento da população síria quase se tornam algo secundário.

As verdadeiras causas da guerra se baseiam nas decisões politicas em Washington, Moscou, Bruxelas, Ancara, Teerã e Tel Aviv, sendo o foco uma questão superior: Quem assumirá a supremacia na península árabe? O “clube elitista” dos estados já considerados global players e alguns “aspirantes” vigiam suspeitosamente aqueles que um dia poderiam enfrenta-los à altura. Todas as medidas necessárias estão sendo tomadas para influenciar o resultado em favor próprio. Nem sempre o “clube” e os “aspirantes” colaboram, mas o objetivo nunca se perde de vista. Embora o conflito continue limitado à península árabe, seu resultado mudará a estrutura da política mundial de poder. Aquele que decidir o conflito a seu favor estará no controle de uma das regiões mais sensíveis do mundo, ampliando sua esfera de influência de forma abrangente.

Como sabemos existem duas alianças opostas. A aliança a favor de Assad, representada pela Rússia, pelo Irá e, por parte, pelo Líbano e a aliança contra o regime atual que apoia os rebeldes: os Estados Unidos, a Turquia e a União Europeia.

Embora seja um inimigo declarado do regime de Assad e aliado dos Estados Unidos, Israel assume um papel diferenciado neste conflito. Se islamistas radicais assumissem o poder na Síria, o governo israelense consideraria o regime de Assad um mal menor.

Os Estados Unidos e a busca pelo status quo

Os Estados Unidos se consideram a força protetora de Israel e, devido ao forte relacionamento bilateral com a Arábia Saudita, entendem-se como o poder dominante na península arábica. Tal domínio é notado cada vez mais pelos estados árabes; é uma causa determinante das divergências políticas e culturais na região. No fundo, os Estados Unidos não podem estar interessados em mudanças significativas. Por isso, há pouca motivação do governo americano de se envolver no conflito. A motivação restante se baseia na atitude do contraente global, da Rússia. Washington teme a influência crescente de Moscou nesta região. (Como se fosse o único palco diplomático no qual os rivais geopolíticos se encaram … )

Nesse contexto, os Estados Unidos são a única potência na região capaz de impedir quase qualquer tentativa de mudança através de intervenções militares. Essa ultima ratio garante a segurança e a existência do estado de Israel. Mesmo se os Estados Unidos quisessem se retirar completamente dos problemas da região, qualquer mudança de constelações políticas e de poderes os afetará. Ganhar tempo é o fator decisivo e crítico para o governo norteamericano no conflito na Síria. Cada dia sem mudança real de poder é uma vantagem.

A Rússia, o contraente da aliança ocidental

Após da queda do império soviético nos anos 1990 e da perda de influência no leste Europeu, a Rússia se fortaleceu novamente e voltou a mostrar ambições de se re-estabelecer como superpoder mundial. A expansão estratégica da sua área de influência é um objetivo declarado da política externa russa. Sua única base naval na área mediterrânea se localiza na Síria. Do ponto de vista russo, a preservação desta base é essencial para garantir suas reivindicações ao poder na região. Por isso, o governo em Moscou é a favor de manter Assad no poder, embora não queira uma escalada militar do conflito, cujos resultados seriam incalculáveis.

No entanto, o fornecimento de armas russas para a Síria não é algo novo. Existem contratos bilaterais há muitos anos. Atualmente, o equipamento velho, inválido ou destruído está sendo substituído por material novo. Tais contratos e alianças também são normais nas relações entre outros estados. Moscou simplesmente está cumprindo contratos que já existem há muito tempo e que estão de acordo com o direito internacional.

Recentemente, o foco polêmico da mídia internacional era na entrega de mísseis anti-aéreos e de aviões caça do tipo MiG 29. Como diz o nome, os mísseis servem para destruir alvos aéreos. Os rebeldes não possuem aviões. E os MiG 29 são caças de supremacia aérea. Embora o governo Assad possa usá-los contra posições rebeldes, ele não precisa pois dispõe de outros tipos de aviões para tanto. De fato, o MiG 29 não significa um perigo sério para os rebeldes, mas sim para os caças modernos dos Estados Unidos e de Israel, pois dificulta os planos de ataque destes países. No fundo, a Rússia está criando uma certa igualdade de armas, isso não entre o governo sírio e os rebeldes, mas diante de uma possível intervenção aérea de fora.

De qualquer forma, o governo russo não abrirá mão de seus interesses no palco diplomático.

O Irã ou “O inimigo do meu inimigo”

No palco internacional, o Irã é largamente isolado. No entanto, o país mantém relações fortes com a milícia libanesa Hizbollah. O apoio logístico desse grupo militante não é somente tolerado pelo regime Assad, mas também organizado no próprio território sírio. Uma perda da “ponte síria” poria em risco a existência da Hizbollah, diminuiria a pressão ao arqui-inimigo iraniano Israel, isolaria Teerã completamente e facilitaria um ataque israelense ao Irã. Por isso, o país apoia há um bom tempo o regime Assad com logística, know how e tropas.

Do ponto de vista iraniano, a guerra na Síria também é uma luta religiosa contra a influência crescente dos sunitas que representam a maior facção dos rebeldes. Embora Assad não seja xiita, (a grande maioria dos iranianos são xiitas), a Síria e o Irã se sentem conectados fortemente por causa do seu arqui-inimigo comum: Israel. No território libanês, a Hizbollah se estabeleceu como um estado independente, agindo na fronteira norte do Israel, sem temer quaisquer restrições, lutando também ao lado do regime de Assad. É óbvio que a situação da Hizbollah iria mudar gravemente se os sunitas assumissem o poder em Damasco.

Demonstração do poder no Bósforo

Sem dúvida, a Turquia também está com um pé no conflito. A província de Hatay é uma enclave. Localizada na fronteira da Síria, sua população se identifica mais com os árabes que com os turcos. Existem vários e diversos laços culturais e familiares determinantes. O governo turco reage a esse “clima de colaboração” de forma ostensíva, reivindicando seu poder na província, exigindo, por exemplo, sistemas anti-aéreos Patriot, (operado por militares alemães e holandeses), dos seus aliados da OTAN para justificar sua posição no palco internacional. Oficialmente, estes sistemas estão direcionados contra a Síria, mas também servem para fins de política interna. E, além de estabelecer campos de refugiados, Ancara também abre a fronteira unilateralmente para fornecer armas para os rebeldes.

Resta dizer que em Hatay também se localiza uma grande base aérea dos Estados Unidos que, provavelmente, desempenharia um papel importante no caso de uma intervenção militar na Síria; uma chance para o governo turco de se livrar de um concorrente politico e militar na região.

Israel ou o “Catch 22”

No fundo, Israel está em guerra com todos os partidos envolvidos no conflito – abertamente ou clandestinamente. Não importa quem chegará ao poder, ele certamente será um adversário na região. O único interesse de Israel é diminuir a máximo as forças de um possível futuro inimigo. Por isso, o estado judaico não apoia nenhum dos adversários na Síria. Ao mesmo tempo, mantém a opção de atacar qualquer um deles, se o ataque estiver de acordo com seus próprios interesses.

Do ponto de vista israelense, o pior cenário deveria ser uma queda do regime Assad, seguido por uma islamização radical do pais.

O caos europeu e um conto de fada chamado “democracia”

A União Europeia criou seu próprio papel nesse conflito. Embora alguns membros da União possuam um certo peso na área diplomática, a “voz” da organização como um todo não era considerada significativa em relação a decisões políticas no nível global. Apesar do consenso de condenar o regime de Assad, não existe uma coordenação verdadeira para lidar com o problema. Enquanto a Grã-Bretanha e a França admitiam fornecer armas para os rebeldes, a grande maioria dos membros da União assumiu a posição de observadores.

O efeito desejado de que as revoluções árabes conseguiriam derrubar tiranos e iniciar processos democráticos (só bastava o povo se levantar), já falhou no caso da Líbia: tirar Gaddafi do poder só foi possível após a instalação de uma zona de exclusão aérea e o envio de tropas terrestres. Gaddafi realmente foi desposto, mas a situação na Síria é outra. Os governos europeus não consideraram isso e declararam Assad como alguém politicamente morto, cortando todas as relações com Damasco. Assad, no entanto, continua no poder e a União Europeia perdeu a oportunidade de influenciar o rumo do conflito por meios diplomáticos.

Tudo indica que, embora as revoluções árabes tenham sido iniciadas por movimentos democráticos, os mesmos não possuíam o apoio suficiente das populações para que forças reformistas seculares pudessem participar dos novos governos eleitos de forma significativa. O resultado real, como no Egito, foi o início de um processo de islamização radical. O fato de os diplomatas europeus não terem reconhecido a islamização não é somente uma grande falha da política externa europeia, como também levou-a a buscar, tardiamente, uma solução de uma crise à beira da insignificância.

A oposição síria está retraída, perdeu quase todos os pontos estratégicos e justifica tal situação alegando a ausência de apoio do exterior e o envolvimento da Hizbollah no conflito. Mas as razões são outras. Os grupos democráticos que iniciaram o levante se tornaram uma minoria insignificante. As ações militares estão sendo realizadas por uma variedade de grupos que também são inimigos entre si. Alguns deles oprimem a população da mesma forma como o regime Assad – ou de forma pior. Os donos da guerra estão lucrando. Clãs de famílias redefinem suas áreas de poder e a charia se espalha em áreas supostamente “liberadas”.

Sob o regime de Assad, para as minorias religiosas (os xiitas, alevitas e cristãs), a liberdade de viver e praticar suas crenças é garantida. (Assad é alevita). Algo elas temem perder, caso o regime seja desposto. Não houve, em nenhum momento, uma maioria da população síria que tivesse apoiado o levante. Ao contrário, uma maioria da população sente seu futuro ameaçado por causa da oposição, sente-se até ameaçada pessoalmente. Embora, para eles, Assad represente a falta de liberdade política e uma ditadura que não tolera oposição, ele também é visto como garantia de prosperidade e segurança, (comparado a outros países da região), de liberdade religiosa e unidade nacional.

Embora a oposição desperte a esperança de mudança política, ela também traz a segregação étnica, a desordem social e a perseguição religiosa. O problema da oposição não é a falta de armas ou a falta de apoio internacional, o problema é ela mesma. Assustando a própria população, ela infelizmente corresponde, por parte, àquela imagem que é divulgada pelo governo Assad: “bandidos” e “terroristas”.

Uma questão de soberania?

Qualquer que seja a solução do conflito, ela só será permanente se for determinada pelo próprio povo sírio, na base de seus próprios interesses. Assad é um déspota e existem bons motivos de estar a favor da sua queda. Mas, diante da situação atual, considerando os diversos protagonistas internacionais que impõe mais seus próprios interesses do que daqueles da população síria, o governo Assad permanece uma opção. Não é a melhor opção, sem dúvida, mas talvez seja a questão da soberania do país para evitar que a Síria enfrente o mesmo destino como o Afeganistão e o Iraque.

Parece que o princípio básico do direito internacional de não intervir nos assuntos internos de um estado, está perdendo cada vez mais a sua importância, embora se trate de uma ferramenta indispensável para evitar guerras entre as nações soberanas.

Heinz Sauren se formou em direito e filosofia, é autor, colunista e ensaísta. Ele publica no magazine político alemão le Bohémien e no seu blog Freigeist.

Determinismo? Uma Ova!

Se tudo já fosse escrito,
se não pudessemos fazer nada,
se o livre arbítrio não existisse,
imagine as consequências:

Qualquer abuso,
qualquer atrocidade,
qualquer corrupção,
qualquer crime,
qualquer crueldade
poderia ser

justificado.

Auschwitz
teria sido

inevitável.

UMA OVA!

Argumentos para deletar sua conta no Facebook

(Nada copiado da net mas um resumo individual … )

À primeira vista, o facebook é bem prático: você pode navegar, deixar comentários, bater um papo, fazer upload de fotos e vídeos, e ficar horas e horas por aí, viajando pelos perfis de outros. Mas, no fundo, tudo isso é um grande desperdício de tempo. Será que realmente vale a pena?

Na minha opinião, a maioria das informações que você encontra nos murais e nas fotos não passa de algo pitoresco ou até mesmo brega.

Quanto à função de comentários: prefiro me comunicar com as pessoas de que gosto por e-mail, messenger ou telefone. Na melhor das hipóteses, eu as encontro em um evento qualquer para falar com elas pessoalmente. E as fotos? Sejamos sinceros: aquelas fotos de festas e festinhas, de viagens e viagenzinhas, de comidas e comidinhas, de gatos e gatinhas são cansativas, causam mais do que tédio. Nem falar das inúmeras imagens de auto ajuda, nem falar das polémicas políticas visuais, sem contexto algum. Realmente duvido se adiante comentar, ou “compartilhar”, ou “curtir” algo assim. Mas, caso você seja um fotógrafo amador, querendo publicar fotos individuais de verdade, eu considero sites como flickr ou picasa uma opção bem mais adequada.

Tudo bem – seja como for – fora isso, você ainda poderia usar o facebook somente como ferramenta de comunicação ou de planejamento de eventos, correto? Bom, acontece que essa plataforma virtual é uma tentativa séria de monopolizar e centralizar a comunicação on-line. Nesse ramo, ela já eliminou muitas formas de diversidade virtual que existiam antes de ela mesma se tornar popular. Também se trata de uma máquina gigantesca de publicidade dirigida, sem mencionar que é uma fonte de dados incrivelmente rica para empresas de marketing, corporações, instituições de pesquisa e controle público. Usando somente uma plataforma, você facilita para ela a obtenção de dados, em vez de usar sites pessoais múltiplos, servidores ou clientes de e-mail particulares e de diferentes tipos de empresas. No segundo caso, seus dados pessoais não serão tão fáceis de acessar, analisar e abusar.

Mas, por que você deveria precisar de tanta privacidade? Talvez nem precise mesmo! Aliás, sem querer soar assombroso ou instigar teorias de conspiração, por favor considere que o tal facebook é um sistema que, em mãos erradas, é capaz de monitorar pessoas e empregar formas de censura. Quanto mais importante uma rede social como essa se torna, mais dependente seremos dela para fornecer informações aos outros, contatar amigos, trocar ideias e tudo mais. No fundo, se trata somente de um recurso gigantesco, não somente para empresas, mas também para outras instituições obterem dados com a intenção de não apenas analisar mas influenciar a opinião pública.

Por falar nisso:

Delete a conta – caso meus argumentos tenham sido convincentes – use seu e-mail, use outros aplicativos de chat e sites para se comunicar, para expressar a sua opinião, para divulgar fotos ou o que mais você desejar.

Caso tudo acima não tenha sido convincente, sugiro que pesquise as configurações da sua conta e que a use com cautela e moderação.

Thiago Lobo: o ilustrador sobre o cético (2)

Como já disse, queria comentar uma segunda imagem do blog do Thiago Lobo. Ela contém um “argumento clássio” dos criacionistas:

Bom, à primeira vista, tal argumento parece fazer sentido. Como é possível surgir algo tão complexo, como o universo e a vida no nosso planeta, sem “projeto” algum? Pois é. O problema é que a mensagem acima distorce a teoria da evolução. Nem o próprio Darwin afirmaria que a vida é o resultado de um mero acaso.

O acaso puro criaria um caos sem sentido. Existem as leis físicas também. Aliás, somente elas criariam algo sem sentido de outra forma: um tipo de automatismo que não corresponderia com a dinâmica do nosso universo.

É a combinação destes dois fatores que é capaz de efetuar mudanças e fazer a vida progredir. E isso é um processo permanente.

Eis o “projeto”.

Neste contexto, não importa se você é ateu, cético ou crente.

Thiago Lobo: o ilustrador sobre o cético (1)

Já que não parece ser possível deixar comentários no blog dele, permitam me fazer isso por aqui. Se trata de duas imagens. Eis a primeira:

Então:

O cara por trás do telescópio é uma figura e tanto.

Primeiro, porque ele compara o universo com um relógio. Um relógio é uma máquina. O universo não é uma máquina. Uma máquina não produz algo tão importante como o acaso. E, veja bem, existe uma outra palavra para o acaso neste contexto. É chamado de “liberdade”.

Segundo, porque a fascinação dele fala por si. Ser fascinado por algo não tem nada a ver com a racionalidade com qual ele “explica” aquilo que observou. Se trata de uma contradição tipicamente humana.

E o outro cara? Ele parece tão feliz e equilibrado, não é?

Sinto muito, mas ele é um ignorante, porque ele não percebe os verdadeiros motivos da fascinação do primeiro cara. Empatia zero! Embora ele tenha feito uma pergunta interessante, ele fez a mesma somente para poder confirmar aquilo que ele já pensava antes. Invés de entrar na matéria, ele se afasta com aquele sorriso de crente. Invés de fazer mais perguntas, ele vai embora, continuando no mundo fechado dele, abandonando a chance de um discurso pra valer.

Resumo: é o encontro de duas crianças.

Visto ou vivido?

A “Festa da Lanterna” é um evento que ocorre uma vez por ano, em junho, na escola Waldorf que minha filha frequenta. É comemorada à noite pelas crianças do maternal e do jardim, acompanhadas dos professores. Os pais são convidados para assistirem à pequena cerimônia na quadra da escola. As luzes se apagam e as crianças entram em fila, cantando, cada uma com uma lanterna na mão, para se reunir. Enquanto isso, alguns professores acendem um fogo com tochas no centro da quadra.

Poderia, certamente, ser um momento inesquecível para todos os presentes e não apenas para as crianças.

Infelizmente, tal evento sofreu um distúrbio grave: uma tempestade de relâmpagos, causados pelas máquinas fotográficas de muitos pais, que “documentavam” a cerimônia inteira. Como pai, confesso que tal atitude me perturbou e até irritou. Que mania é essa tirar imagens de pequenas crianças carregando lanternas? Uma lanterna serve para iluminar os arredores e, neste caso, encantar os participantes. Em uma ocasião como esta, o flash de uma câmera é mais do que inconveniente: ele acaba com a intenção e o sentido da festa. Sem falar daqueles que, ao olhar através das lentes das suas máquinas, nem conseguiram desfrutar realmente daquele momento na vida dos seus filhos por estarem ocupados com seus brinquedos digitais.

Após armazenar arquivos e mais arquivos no disco rígido, qual é o resultado de tal esforço? Imagens de crianças iluminadas por luzes artificiais e não pelas lanternas que elas carregavam. A lembrança de um evento importante, reduzido à mera atividade digital como algo “visto” mas não “vivido”.

Mas que tipo de lembrança é essa?

P. S.

Todos querem ser famosos. Serem vistos, congelados, preservados pela mídia, porque nós passamos a acreditar no que é visto mais do que no que é vivido. De alguma forma nós entendemos tudo ao contrário e as imagens nos parecem mais reais para nós do que as experiências. Para confirmar que nós realmente existimos, que nós realmente importamos, temos que ver fantasmas de nós mesmos preservados em fotografias, em programas de televisão e videotapes, no olho do público.

E quando você sai de férias, o que você vê? Bandos de turistas com câmeras de vídeos grudadas em suas faces, como se estivessem tentando sugar o mundo real para dentro do mundo bi-dimensional das imagens, gastando seu “tempo livre” vendo o mundo através de uma pequena lente de vidro. Certamente, transformar tudo que você poderia experimentar com os cinco sentidos em informação gravada que você só pode observar à distância, de fora, oferece a ilusão de estar no controle da própria vida: você pode rebobiná-la e reprisá-la, mais de uma vez, até que tudo pareça ridículo.

Mas que tipo de vida é essa?

Trecho do livro Days of War, Nights of Love, achado no blog de Rafael Conter.