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Pensando naquele história da Cambridge Analytica …

… sendo involvida em fraudes com os dados de 50 milhões de usuários do Facebook, eu me pergunto seriamente o que as pessoas pensavam que seria o modelo de negócios desta rede social?

Facebook coleta seus dados e os vende para pessoas que pretendem fazer algo com eles. Ponto final.

Usar 50 milhões de registros de dados para propaganda eleitoral e fins manipulativos não é um “abuso de dados”, mas simplesmente um resultado do modelo de negócios do Facebook.

Não é um “efeito colateral”, mas o modelo em si.

Por que então tamanho espanto?

Ferida narcísica, simplesmente …

Todo aquele ódio visceral contra os bodes-expiatórios chamados Dilma e Lula (não somente nas redes sociais e na campanha eleitoral atual) também representa, me parece, um sintoma claro da ferida narcísica das classes A e B. Para os integrantes destas classes é simplesmente uma ofensa e uma invasão ver um “pobre” frequentar o mesmo shopping, usar um smartphone ou viajar de avião ao lado deles, pois, até então, o poder aquisitivo pertencia exclusivamente a eles. O importante era manter o “pobre” na condição e no lugar de “pobre”, porque tal condição lhes afirmava e garantia o privilégio do ter e com isso o do poder.

Simplesmente …

P. S.
Por falar em poder aquisitivo: alguém se lembra dos rolezinhos?

Jesus …

… foi um anarquista espiritual sem teto que protestava contra a hipocrisia da igreja do seu tempo, se importava com criminosos, prostitutas e outros marginais, pregava a tolerância e a empatia, praticava o direito universal à assistência médica sem cobrar pela mesma, estava a favor da redistribuição da riqueza e duvidava seriamente que uma pessoa rica fosse capaz de encontrar paz na vida eterna.

Em troca, foi acusado e preso por subversão, condenado num tribunal injusto e populista, vaiado por uma multidão alucinada, torturado e executado por crimes contra o estado.

Agora é sua vez: explique-me por que Jesus votaria num candidato da bancada evangélica. Fico no aguardo.

O estranho Mujica no desconcertante Uruguai

Mujica4c-e1400869625507-120x80Diz que a democracia e o socialismo são compatíveis, mas com a condição de que um não engula o outro. Diz que o que mais importa destacar de seu mandato é a luta contra a pobreza e a indigência, e o crescente clima de estabilidade política e confiança que vem atraindo os investimentos estrangeiros. Pergunta se queremos um uísque, diz que não teremos outro remédio senão voltar à economia produtiva, e que neste terreno o Uruguai está muito bem situado, pois tem uma excelente produção de lácteos, de carne, de cereais. Diz que produzem trigo, soja, que exportam arroz, que são bons vendedores de carne de vaca, que exportam peixes pois comem muito pouco, que possuem um mar precioso mas têm vivido de costas para ele já que são descendentes de galegos. Diz que fala muito com os chineses, que são seu principal cliente, que compram toda sua soja e estão aumentando sua presença, que nas campanhas eleitorais as bandeiras são todas chinesas. Diz que o problema da Europa é ter-se descuidado da economia produtiva, subordinando-a a engrenagem financeira, e daí a imagem da cauda que move o cachorro, quando o importante é o cachorro…

Trecho de um artigo por Juan José Millás. O escritor espanhol foi a Montevidéu para acompanhar o cotidiano do presidente uruguaiano, entrevistar o mesmo e descrever suas impressões.

Sobre cães e seres humanos …

Deve ter sido por causa do “ambiente” (um pequeno parque na Vila Madalena), da minha boa vontade e – nem falar – do ótimo desempenho da adestradora que resolvi me afastar com meu parceiro canino daquela turma de cães terapeutas em sociabilização.

dudugramadoHavíamos concluído um curso de adestramento – eu e aquele cachorrinho jovem e inexperiente. Naquele dia, na praça, a atividade era voluntária. Seja como for, me afastei dos outros cães e dos outros donos então, algumas vezes, para ter uma “visão mais ampla” do encontro. Dei umas voltas, soltei o bicho (embora não tenha sido aconselhado por ninguém) quando achei adequado, arrisquei uma “experiência negativa”. Segui meus instintos, como dono diante de “cães desconhecidos”. Nesses momentos, enquanto meu protegé corria “feito louco” em círculos com outros companheiros da sua espécie (maiores e menores), ocorreu-me um insight, bem claro e de forma nítida:

– O ser humano não é perfeito. (Quem diria!)
– O cão perfeito também não existe. (De vez em quando, temos essa impressão, mas acho que não é o caso).
– A relação entre cão e dono é pessoal, há falhas sempre. Such is life. So what? É uma interdependência viva, que inclui riscos.
– A busca pela vida perfeita é uma tentativa constante de achar um ideal, como uma estrela, um ponto fixo, uma esperança; é algo que nos define como seres humanos, embora tal ideal nunca seja alcançado por inteiro. Mas não importa.

Quanto aos cães e aos donos: que o behaviorismo seja uma ferramenta necessária e útil mas não o sentido da vida.

Boa Viagem!

Texto original: Matthias Eberling
Tradução autorizada: Peter Hilgeland

Estamos tão acostumados com a aviação como meio de transporte que aceitamos uma viagem acima das nuvens como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas, na verdade, dentro de um avião, nós nos encontramos numa situação fora do comum: estamos a quase dez mil metros acima do solo, lá fora as temperaturas são baixíssimas e nos deslocamos através do “nada” a uma velocidade de novecentos quilômetros por hora. Enquanto assistimos a um filme e nossos filhos abusam dos smartphones, esquecemos completamente a artificialidade do lugar. A pressão da cabine protege nosso corpo, o ar condicionado nos aquece, um programa de computador conhece o trajeto e guia o avião. Não somente esquecemos nossa fragilidade neste ambiente, como também esquecemos quão dependente somos. Nestas alturas, além de simplesmente congelar e cair feito uma pedra de gelo, também morreríamos de fome, pois acima das nuvens nada cresce e não há água para beber. Dependemos da tripulação que nos alimenta e instrui, vivemos dos alimentos compartimentalizados que o avião armazena. Também não podemos sair do avião durante a viagem. Porque querermos chegar a outro lugar em altíssima velocidade, nós nos entregamos à dependência de uma organização que nos protege, cuida e, ao mesmo tempo, nos domina.

flowDe volta ao solo, a situação não é diferente. Estamos tão habituados à civilização moderna que a enxergamos da mesma forma: como a coisa mais natural do mundo. Em casa, a geladeira está cheia porque as estantes dos supermercados estão repletas. Nossos carros e caminhões circulam sem parar porque há combustível suficiente nos postos de gasolina. A água limpa sai de qualquer torneira, seja ela fria ou quente; a luz elétrica está a disposição em qualquer quarto, basta acioná-la. O dinheiro flui através das nossas contas e através das nossas carteiras e mantém em movimento o círculo vivo da necessidade e da satisfação. Nós olhamos os monitores dos nossos computadores e os displays de outros aparelhos eletrônicos como se olhássemos através da janelinha de um avião. O que aconteceria caso a parede fina da cabine se rompesse? Caso o salário, a renda, não fosse mais transferido e as prateleiras dos supermercados não fossem mais abastecidas? Os relatos advindos da Síria e da Ucrânia nos transmitem uma ideia dessa dependência e da fragilidade na qual nos metemos. Nós nos tornamos apenas passageiros faz tempo. Nós nos entregamos às mãos de grandes organizações, de um sistema que exige um preço [alto] para a nossa proteção. Estamos sendo vigiados nos aeroportos, na internet – e, através dela, na vida cotidiana e em nossos lares. E é tarde demais para sair.

Matthias Eberling é cientista político e escritor, viveu em Berlim de 1991 a 2013 e trabalhou como consultor político por vários anos. Sua última novela policial “Berliner Asche” (“Cinza Berlinense”) foi publicada no ano passado.

Ponto Zero

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A natureza de um processo depende do seu ponto zero.

A natureza desse ponto vai determinar a qualidade do pensamento e a quantidade de ação, enquanto capacidade de esforço, perseverança (força de conservação, tal como Newton descreve em seus Scholia) e empenho na existência (do Ser).

Aqui entendemos que o ponto zero é a referência interna do espaço em que se movimenta a consciência. Essa medida interna do tempo orienta o eixo de ação da consciência. Do ponto, surgem todas as variáveis geométricas. Do ponto surge a linha, a superfície e os sólidos geométricos.

O papel peculiar do ponto é que ele tem zero dimensões; o fato oculto do ponto zero é que ele inclui nada e tudo; a parte curiosa é que sem ele nada parte e apenas a partir dele tudo se forma.

A natureza do ponto zero é ser potencial, por isso ele envolve todo o infinito. Há uma aparente oposição entre o zero e o infinito, uma vez que se estamos conjugando o zero a partir de um ponto, como pensar o infinito antes dele?

O que parece ser dual é, na verdade, condição de necessidade. O infinito se apresenta como infinitas funções de probabilidades que coexistem no ponto. Por ele ainda não ser nada, poderia vir a ser tudo. O ponto enquanto condição zero retém o vir-a-ser, não desaparecendo quando atinge seu fim ideal, uma vez que, topologicamente (em seu sentido espacial – res extensa), ele conserva em si a origem da ação- a Ideia (res cogito).

Então, não é que Pitágoras chamou Deus de Geômetra!

Luciano Fiscina

Força de Vontade

Não sei se dá,
mas tento /
(a pedra nunca é leve /
quando a gente é vento)

Marcos Bassini

Declaração da Independência Reloaded

Jogue fora todos os medos e preconceitos servis, sob os quais as mentes dos fracos se curvam. Coloque a razão firmemente no trono dela, e apela ao tribunal dela para todos os fatos, todas as opiniões. Questiona com coragem até a existência de Deus; porque, se houver um, Ele deve aprovar mais o respeito à razão que o medo cego.

Thomas Jefferson, em carta a Peter Carr, 1787

Determinismo? Uma Ova!

Se tudo já fosse escrito,
se não pudessemos fazer nada,
se o livre arbítrio não existisse,
imagine as consequências:

Qualquer abuso,
qualquer atrocidade,
qualquer corrupção,
qualquer crime,
qualquer crueldade
poderia ser

justificado.

Auschwitz
teria sido

inevitável.

UMA OVA!