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Ferida narcísica, simplesmente …

Todo aquele ódio visceral contra os bodes-expiatórios chamados Dilma e Lula (não somente nas redes sociais e na campanha eleitoral atual) também representa, me parece, um sintoma claro da ferida narcísica das classes A e B. Para os integrantes destas classes é simplesmente uma ofensa e uma invasão ver um “pobre” frequentar o mesmo shopping, usar um smartphone ou viajar de avião ao lado deles, pois, até então, o poder aquisitivo pertencia exclusivamente a eles. O importante era manter o “pobre” na condição e no lugar de “pobre”, porque tal condição lhes afirmava e garantia o privilégio do ter e com isso o do poder.

Simplesmente …

P. S.
Por falar em poder aquisitivo: alguém se lembra dos rolezinhos?

“Dilma ou Aécio? Diga-me em quem votas e sofra minha ira …”

dilmaaecio

Do ponto de vista de um psiquiatra.

P. S.
Já faz um bom tempo que vivo no Brasil mas não me lembro de a sociedade brasileira estar tão acirrada assim para uma eleição.

Sobre a falta do olhar alheio …

Nosso cérebro está adaptado para interagir face-a-face com os outros – nesse tipo de conversa recebemos uma série de informações em tempo real, se estamos agradando, se a pessoa está brava, triste, feliz, e assim ajustamos o conteúdo e também a forma de nosso discurso de forma automática e inconsciente. Isso não apenas porque queremos agradar, mas também porque ver o sofrimento do outro nos incomoda, refreando certos impulsos. Quando não temos esses freios sociais, funcionamos – em parte – como os verdadeiros psicopatas. Essas pessoas têm dificuldade para reconhecer adequadamente as emoções negativas nas expressões faciais; e são incapazes de sofrer quando vêem alguém sofrendo, por carecerem de empatia. Ora, nas redes sociais somos todos assim: não vemos as expressões de nossos interlocutores, tanto pela invisibilidade como pela assincronia do diálogo. E sem esse feedback, não sofremos com a dor alheia, já que não a testemunhamos diretamente.

Creio que essa é a grande razão para tantas pessoas assumirem atitudes antissociais diante de uma tela e um teclado, …

Trecho do artigo: “Psicopata é você!” Vale a pena ler por inteiro.

Cercado Por Imbecis

Porque alguns de nós (inclusive eu) agimos como imbecis quando dirigimos? Caminhando numa calçada repleta de gente, não sinto a necessidade urgente de empurrar os pedestres ao meu redor, quando eles interditam meu caminho. (Tudo bem, às vezes eu sinto tal necessidade, mas eu não o faço). Na verdade, aprecio a experiência de caminhar em uma calçada urbana movimentada. Pode até ser agradável observar as pessoas e desfrutar das cenas e do ambiente sonoro de uma cidade, enquanto percorro meu trajeto de A a B.

No entanto, atrás do volante do carro, as coisas são diferentes. Quando dirigimos, não enxergamos os outros como pessoas. Nós os enxergamos como competidores numa corrida imaginária para lugar nenhum. Se alguém o ultrapassa ou o corta, você considera a ação como um ataque pessoal ao seu caráter e à sua liberdade. A resposta será imediata e desproporcional. Isso sem mencionar pedestres e ciclistas. Eles são vistos como cidadãos de segunda classe, não parecem aptos o suficiente para dirigir um carro e são tratados como meros obstáculos. O ambiente percebido ao redor dos motoristas, e até a cidade em si, desaparece na obscuridade e se torna apenas uma distração na reta final de uma corrida frenética.

"Os Imbecis e EU!" (Fonte: progressivetransit.wordpress.com)

É impressionante (até assustador) como o carro, sendo o nosso meio preferido de transporte, é capaz de causar efeitos tão profundos em nossas personalidades. Há muitos motivos psicológicos para isso:

– Duas toneladas de aço nos fazem sentir mais seguros do que realmente somos.

– Não enxergamos as pessoas que conduzem os outros carros, nós as percebemos como objetos inanimados.

– Não somos capazes de nos comunicar. Nós, seres humanos, os criadores da língua moderna, da literatura, da filosofia e da ciência, estamos sendo reduzidos a resmungos e gestos a partir do momento em que entramos num carro. O som da buzina pode significar “desculpe” ou “sai da frente, seu FDP !!!”.

– Nós enlouquecemos com o poder. Consigo atingir uma velocidade de 100 km/h em poucos segundos, mas “a fera” fica presa em congestionamentos que impedem a sua libertação. Como os ambientalistas, ciclistas e outros ousam limitar a minha liberdade a 60, 100 ou 120 km/h?

– Nós nos sentimos desconectados da nossa cidade. Dirigimos de A a B e só estamos aqui por causa das ruas. Toda aquela tralha (semáforos, faixas de pedestre, crianças, ciclistas, animais) atrapalha e precisa sair do caminho.

Tal comportamento não nos leva a lugar algum. Como podemos aprender a cooperar, se a presença de outros cidadãos nos irrita tanto? Como criamos comunidades no espaço urbano, se há tanto ódio fluindo pelas veias das nossas cidades? Mas não recrimino os motoristas por esbravejarem. Quando não existem outras opções para o transporte, eles parecem presos na armadilha da direção.

Texto original de Derek Edwards: “Surrounded By Jerks”, em Progressive Transit.
Tradução: Peter Hilgeland

A fim de diminuir a pressão, o autor deste texto resolveu morar próximo ao seu local de trabalho e aumentou o uso da bicicleta como meio de transporte. Resultado: ele dirige menos, mas quando usa o carro, sente-se mais tolerante em relação aos outros e é capaz de enfrentar um engarrafamento com dignidade.

Post Scriptum (25.05.2013)
Acabei de achar um outro texto que trata do mesmo assunto, o foco é “mais amplo”, é um ótimo complemento do post acima: “O trânsito, uma metáfora da vida”, do blog de Leo Rossatto.

Na Eminência de Matar

Recentemente, a minha esposa se inscreveu num curso de escrita criativa. Hoje ela já me apresentou o resultado da primeira tarefa: “Escrever um texto sobre um assasínio na eminência de matar”.

Dicotomía

O dia amanheceu ensolarado. Os pássaros, a saltitar entre as árvores frondosas, celebravam aquele recomeço. Na cozinha do casarão à beira do lago, ela preparava o desjejum. Fatiou o pão. O café estava pronto. Inerte, encarou o líquido negro que se assemelhava a seu espírito.

Quantos anos haviam se passado? Uma infinidade sem sentido. Olhou para a faca de pão, cuja lâmina a atraiu. Poderia a morte criar vida? Ela precisava saber.

Fitou as águas plácidas do lago pela janela e, poderosa, caminhou em direção ao quarto. Conforme se movia, os raios de sol cintilavam na atraente lâmina, criando feixes coloridos no ar. Ela detinha o poder da vida e da morte. Tão logo adentrou o quarto, o brilho dançante se desfez sob a penumbra. O corpo moreno ressonava embaixo dos lençóis. Ela mirou a veia pulsante do pescoço e ergueu a faca.

Os lençóis manchados de sangue ela queimaria e o homem faria do lago sua morada eterna. Em breve, o tormento secular teria fim para dar lugar ao nascimento.

Autor: Paula D. A. Hilgeland, psicóloga (!)

Bom, o que posso dizer? Gostei do texto, realmente! E, enquanto o tema estiver no nível simbólico, não há motivo para se preocupar …