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Sobre um circulo invisível e a opinião pública

A capacidade da percepção humana não é tão eficiente quanto muitos de nós tendem a acreditar, e muito menos ainda ela é capaz de obter uma impressão completa de algo.

Por exemplo: quando você se concentra no ponto vermelho da imagem seguinte, é possível observar como o círculo cinzento fosco parece sumir. Somente através do movimento dos olhos, ou seja, só quando você desfoca do ponto vermelho, o circulo ao redor volta a aparecer no campo de visão.

circuloinvisivel

Bom, no caso da imagem se trata de uma ilusão ótica que foi induzida fisiologicamente. Mas ela é um ótimo exemplo de como funciona a estrutura da percepção humana em geral.

Quando somos expostos na mídia a um fragmento chamativo da realidade e forçados ou interessados a nos concentrarmos neste detalhe, os aspectos menos sensacionalistas da realidade tendem a sumir da nossa percepção. Por isso, qualquer opinião que se forma sobre uma notícia tende a ser incompleta, embora o envolvido acredite que tenha uma visão geral e objetiva do assunto.

Daí surgem – por grande parte – as polêmicas, as receitas fáceis para problemas complexos.

Pense nisso, na próxima vez que você assistir às notícias em rede nacional ou quando curtir ou comentar um post nas redes sociais.


A maior parte deste texto é a tradução adaptada de trechos de um post em Alemão: Elias S., obrigado pela inspiração!

Boa Viagem!

Texto original: Matthias Eberling
Tradução autorizada: Peter Hilgeland

Estamos tão acostumados com a aviação como meio de transporte que aceitamos uma viagem acima das nuvens como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas, na verdade, dentro de um avião, nós nos encontramos numa situação fora do comum: estamos a quase dez mil metros acima do solo, lá fora as temperaturas são baixíssimas e nos deslocamos através do “nada” a uma velocidade de novecentos quilômetros por hora. Enquanto assistimos a um filme e nossos filhos abusam dos smartphones, esquecemos completamente a artificialidade do lugar. A pressão da cabine protege nosso corpo, o ar condicionado nos aquece, um programa de computador conhece o trajeto e guia o avião. Não somente esquecemos nossa fragilidade neste ambiente, como também esquecemos quão dependente somos. Nestas alturas, além de simplesmente congelar e cair feito uma pedra de gelo, também morreríamos de fome, pois acima das nuvens nada cresce e não há água para beber. Dependemos da tripulação que nos alimenta e instrui, vivemos dos alimentos compartimentalizados que o avião armazena. Também não podemos sair do avião durante a viagem. Porque querermos chegar a outro lugar em altíssima velocidade, nós nos entregamos à dependência de uma organização que nos protege, cuida e, ao mesmo tempo, nos domina.

flowDe volta ao solo, a situação não é diferente. Estamos tão habituados à civilização moderna que a enxergamos da mesma forma: como a coisa mais natural do mundo. Em casa, a geladeira está cheia porque as estantes dos supermercados estão repletas. Nossos carros e caminhões circulam sem parar porque há combustível suficiente nos postos de gasolina. A água limpa sai de qualquer torneira, seja ela fria ou quente; a luz elétrica está a disposição em qualquer quarto, basta acioná-la. O dinheiro flui através das nossas contas e através das nossas carteiras e mantém em movimento o círculo vivo da necessidade e da satisfação. Nós olhamos os monitores dos nossos computadores e os displays de outros aparelhos eletrônicos como se olhássemos através da janelinha de um avião. O que aconteceria caso a parede fina da cabine se rompesse? Caso o salário, a renda, não fosse mais transferido e as prateleiras dos supermercados não fossem mais abastecidas? Os relatos advindos da Síria e da Ucrânia nos transmitem uma ideia dessa dependência e da fragilidade na qual nos metemos. Nós nos tornamos apenas passageiros faz tempo. Nós nos entregamos às mãos de grandes organizações, de um sistema que exige um preço [alto] para a nossa proteção. Estamos sendo vigiados nos aeroportos, na internet – e, através dela, na vida cotidiana e em nossos lares. E é tarde demais para sair.

Matthias Eberling é cientista político e escritor, viveu em Berlim de 1991 a 2013 e trabalhou como consultor político por vários anos. Sua última novela policial “Berliner Asche” (“Cinza Berlinense”) foi publicada no ano passado.

A Síria – Uma Questão Geopolítica

De Heinz Sauren – le Bohémien
Tradução autorizada e adaptada: Peter Hilgeland

Mais de dois anos atrás, a primavera árabe começou, forçando uma reorganização de poder nos países afetados. Os levantes eram considerados o início de revoluções democráticas. Com o decorrer do tempo, esse ponto de vista mudou e revelou a tendência de uma islamização pseudo-democrática. Também na Síria, uma oposição democrática parecia se rebelar contra um governante despótico.

800px-FSA_soldier_with_AK47Acontece que, na Síria, não se trata somente da manutenção do poder de uma ditadura hereditária, tampouco de uma desejada vitória de democratas sinceros. Há tantos atores envolvidos nessa guerra civil, que seus objetivos e interesses nem sempre vem à tona publicamente. O conflito se tornou uma guerra por procuração de global players da política internacional. Trata-se de um conflito entre arqui-inimigos religiosos, de interesses estratégicos dos super-poderes e de Israel, da guerra contra o terror e da tentativa medíocre da União Europeia de encontrar seu lugar no palco diplomático internacional. Diante disso, os interesses e o sofrimento da população síria quase se tornam algo secundário.

As verdadeiras causas da guerra se baseiam nas decisões politicas em Washington, Moscou, Bruxelas, Ancara, Teerã e Tel Aviv, sendo o foco uma questão superior: Quem assumirá a supremacia na península árabe? O “clube elitista” dos estados já considerados global players e alguns “aspirantes” vigiam suspeitosamente aqueles que um dia poderiam enfrenta-los à altura. Todas as medidas necessárias estão sendo tomadas para influenciar o resultado em favor próprio. Nem sempre o “clube” e os “aspirantes” colaboram, mas o objetivo nunca se perde de vista. Embora o conflito continue limitado à península árabe, seu resultado mudará a estrutura da política mundial de poder. Aquele que decidir o conflito a seu favor estará no controle de uma das regiões mais sensíveis do mundo, ampliando sua esfera de influência de forma abrangente.

Como sabemos existem duas alianças opostas. A aliança a favor de Assad, representada pela Rússia, pelo Irá e, por parte, pelo Líbano e a aliança contra o regime atual que apoia os rebeldes: os Estados Unidos, a Turquia e a União Europeia.

Embora seja um inimigo declarado do regime de Assad e aliado dos Estados Unidos, Israel assume um papel diferenciado neste conflito. Se islamistas radicais assumissem o poder na Síria, o governo israelense consideraria o regime de Assad um mal menor.

Os Estados Unidos e a busca pelo status quo

Os Estados Unidos se consideram a força protetora de Israel e, devido ao forte relacionamento bilateral com a Arábia Saudita, entendem-se como o poder dominante na península arábica. Tal domínio é notado cada vez mais pelos estados árabes; é uma causa determinante das divergências políticas e culturais na região. No fundo, os Estados Unidos não podem estar interessados em mudanças significativas. Por isso, há pouca motivação do governo americano de se envolver no conflito. A motivação restante se baseia na atitude do contraente global, da Rússia. Washington teme a influência crescente de Moscou nesta região. (Como se fosse o único palco diplomático no qual os rivais geopolíticos se encaram … )

Nesse contexto, os Estados Unidos são a única potência na região capaz de impedir quase qualquer tentativa de mudança através de intervenções militares. Essa ultima ratio garante a segurança e a existência do estado de Israel. Mesmo se os Estados Unidos quisessem se retirar completamente dos problemas da região, qualquer mudança de constelações políticas e de poderes os afetará. Ganhar tempo é o fator decisivo e crítico para o governo norteamericano no conflito na Síria. Cada dia sem mudança real de poder é uma vantagem.

A Rússia, o contraente da aliança ocidental

Após da queda do império soviético nos anos 1990 e da perda de influência no leste Europeu, a Rússia se fortaleceu novamente e voltou a mostrar ambições de se re-estabelecer como superpoder mundial. A expansão estratégica da sua área de influência é um objetivo declarado da política externa russa. Sua única base naval na área mediterrânea se localiza na Síria. Do ponto de vista russo, a preservação desta base é essencial para garantir suas reivindicações ao poder na região. Por isso, o governo em Moscou é a favor de manter Assad no poder, embora não queira uma escalada militar do conflito, cujos resultados seriam incalculáveis.

No entanto, o fornecimento de armas russas para a Síria não é algo novo. Existem contratos bilaterais há muitos anos. Atualmente, o equipamento velho, inválido ou destruído está sendo substituído por material novo. Tais contratos e alianças também são normais nas relações entre outros estados. Moscou simplesmente está cumprindo contratos que já existem há muito tempo e que estão de acordo com o direito internacional.

Recentemente, o foco polêmico da mídia internacional era na entrega de mísseis anti-aéreos e de aviões caça do tipo MiG 29. Como diz o nome, os mísseis servem para destruir alvos aéreos. Os rebeldes não possuem aviões. E os MiG 29 são caças de supremacia aérea. Embora o governo Assad possa usá-los contra posições rebeldes, ele não precisa pois dispõe de outros tipos de aviões para tanto. De fato, o MiG 29 não significa um perigo sério para os rebeldes, mas sim para os caças modernos dos Estados Unidos e de Israel, pois dificulta os planos de ataque destes países. No fundo, a Rússia está criando uma certa igualdade de armas, isso não entre o governo sírio e os rebeldes, mas diante de uma possível intervenção aérea de fora.

De qualquer forma, o governo russo não abrirá mão de seus interesses no palco diplomático.

O Irã ou “O inimigo do meu inimigo”

No palco internacional, o Irã é largamente isolado. No entanto, o país mantém relações fortes com a milícia libanesa Hizbollah. O apoio logístico desse grupo militante não é somente tolerado pelo regime Assad, mas também organizado no próprio território sírio. Uma perda da “ponte síria” poria em risco a existência da Hizbollah, diminuiria a pressão ao arqui-inimigo iraniano Israel, isolaria Teerã completamente e facilitaria um ataque israelense ao Irã. Por isso, o país apoia há um bom tempo o regime Assad com logística, know how e tropas.

Do ponto de vista iraniano, a guerra na Síria também é uma luta religiosa contra a influência crescente dos sunitas que representam a maior facção dos rebeldes. Embora Assad não seja xiita, (a grande maioria dos iranianos são xiitas), a Síria e o Irã se sentem conectados fortemente por causa do seu arqui-inimigo comum: Israel. No território libanês, a Hizbollah se estabeleceu como um estado independente, agindo na fronteira norte do Israel, sem temer quaisquer restrições, lutando também ao lado do regime de Assad. É óbvio que a situação da Hizbollah iria mudar gravemente se os sunitas assumissem o poder em Damasco.

Demonstração do poder no Bósforo

Sem dúvida, a Turquia também está com um pé no conflito. A província de Hatay é uma enclave. Localizada na fronteira da Síria, sua população se identifica mais com os árabes que com os turcos. Existem vários e diversos laços culturais e familiares determinantes. O governo turco reage a esse “clima de colaboração” de forma ostensíva, reivindicando seu poder na província, exigindo, por exemplo, sistemas anti-aéreos Patriot, (operado por militares alemães e holandeses), dos seus aliados da OTAN para justificar sua posição no palco internacional. Oficialmente, estes sistemas estão direcionados contra a Síria, mas também servem para fins de política interna. E, além de estabelecer campos de refugiados, Ancara também abre a fronteira unilateralmente para fornecer armas para os rebeldes.

Resta dizer que em Hatay também se localiza uma grande base aérea dos Estados Unidos que, provavelmente, desempenharia um papel importante no caso de uma intervenção militar na Síria; uma chance para o governo turco de se livrar de um concorrente politico e militar na região.

Israel ou o “Catch 22”

No fundo, Israel está em guerra com todos os partidos envolvidos no conflito – abertamente ou clandestinamente. Não importa quem chegará ao poder, ele certamente será um adversário na região. O único interesse de Israel é diminuir a máximo as forças de um possível futuro inimigo. Por isso, o estado judaico não apoia nenhum dos adversários na Síria. Ao mesmo tempo, mantém a opção de atacar qualquer um deles, se o ataque estiver de acordo com seus próprios interesses.

Do ponto de vista israelense, o pior cenário deveria ser uma queda do regime Assad, seguido por uma islamização radical do pais.

O caos europeu e um conto de fada chamado “democracia”

A União Europeia criou seu próprio papel nesse conflito. Embora alguns membros da União possuam um certo peso na área diplomática, a “voz” da organização como um todo não era considerada significativa em relação a decisões políticas no nível global. Apesar do consenso de condenar o regime de Assad, não existe uma coordenação verdadeira para lidar com o problema. Enquanto a Grã-Bretanha e a França admitiam fornecer armas para os rebeldes, a grande maioria dos membros da União assumiu a posição de observadores.

O efeito desejado de que as revoluções árabes conseguiriam derrubar tiranos e iniciar processos democráticos (só bastava o povo se levantar), já falhou no caso da Líbia: tirar Gaddafi do poder só foi possível após a instalação de uma zona de exclusão aérea e o envio de tropas terrestres. Gaddafi realmente foi desposto, mas a situação na Síria é outra. Os governos europeus não consideraram isso e declararam Assad como alguém politicamente morto, cortando todas as relações com Damasco. Assad, no entanto, continua no poder e a União Europeia perdeu a oportunidade de influenciar o rumo do conflito por meios diplomáticos.

Tudo indica que, embora as revoluções árabes tenham sido iniciadas por movimentos democráticos, os mesmos não possuíam o apoio suficiente das populações para que forças reformistas seculares pudessem participar dos novos governos eleitos de forma significativa. O resultado real, como no Egito, foi o início de um processo de islamização radical. O fato de os diplomatas europeus não terem reconhecido a islamização não é somente uma grande falha da política externa europeia, como também levou-a a buscar, tardiamente, uma solução de uma crise à beira da insignificância.

A oposição síria está retraída, perdeu quase todos os pontos estratégicos e justifica tal situação alegando a ausência de apoio do exterior e o envolvimento da Hizbollah no conflito. Mas as razões são outras. Os grupos democráticos que iniciaram o levante se tornaram uma minoria insignificante. As ações militares estão sendo realizadas por uma variedade de grupos que também são inimigos entre si. Alguns deles oprimem a população da mesma forma como o regime Assad – ou de forma pior. Os donos da guerra estão lucrando. Clãs de famílias redefinem suas áreas de poder e a charia se espalha em áreas supostamente “liberadas”.

Sob o regime de Assad, para as minorias religiosas (os xiitas, alevitas e cristãs), a liberdade de viver e praticar suas crenças é garantida. (Assad é alevita). Algo elas temem perder, caso o regime seja desposto. Não houve, em nenhum momento, uma maioria da população síria que tivesse apoiado o levante. Ao contrário, uma maioria da população sente seu futuro ameaçado por causa da oposição, sente-se até ameaçada pessoalmente. Embora, para eles, Assad represente a falta de liberdade política e uma ditadura que não tolera oposição, ele também é visto como garantia de prosperidade e segurança, (comparado a outros países da região), de liberdade religiosa e unidade nacional.

Embora a oposição desperte a esperança de mudança política, ela também traz a segregação étnica, a desordem social e a perseguição religiosa. O problema da oposição não é a falta de armas ou a falta de apoio internacional, o problema é ela mesma. Assustando a própria população, ela infelizmente corresponde, por parte, àquela imagem que é divulgada pelo governo Assad: “bandidos” e “terroristas”.

Uma questão de soberania?

Qualquer que seja a solução do conflito, ela só será permanente se for determinada pelo próprio povo sírio, na base de seus próprios interesses. Assad é um déspota e existem bons motivos de estar a favor da sua queda. Mas, diante da situação atual, considerando os diversos protagonistas internacionais que impõe mais seus próprios interesses do que daqueles da população síria, o governo Assad permanece uma opção. Não é a melhor opção, sem dúvida, mas talvez seja a questão da soberania do país para evitar que a Síria enfrente o mesmo destino como o Afeganistão e o Iraque.

Parece que o princípio básico do direito internacional de não intervir nos assuntos internos de um estado, está perdendo cada vez mais a sua importância, embora se trate de uma ferramenta indispensável para evitar guerras entre as nações soberanas.

Heinz Sauren se formou em direito e filosofia, é autor, colunista e ensaísta. Ele publica no magazine político alemão le Bohémien e no seu blog Freigeist.

A Aura das Palavras

A palavra possui uma aura que consiste em sua imagem escrita,
em sua sonoridade, e nas associações que ela cria dentro de nós.
Quanto mais importante e mais usual esta palavra é,
mais intensa e marcante se torna a sua aura.
Quem a destrói, está destruindo algo dentro de nós,
está tocando nos recônditos do nosso inconsciente.

Das Wort besitzt eine Aura, die aus seinem Schriftbild,
seinem Klang und den Assoziationen besteht, die es in uns hervorruft,
und je wichtiger und gebräuchlicher ein Wort ist,
desto intensiver und prägender ist diese Aura.
Wer sie zerstört, der zerstört etwas in uns,
er tastet den Fundus unseres Unbewußten an.

Reiner Kunze, “Die Aura der Wörter”, Radius Verlag Stuttgart (2004)
Tradução: Peter Hilgeland

Heinz Stein: Illustration zu dem Gedicht "Von der Inspiration" (reiner-kunze.com)

Illustration: Heinz Stein (reiner-kunze.com)

Ensino escolar: Pesquisa Alemã revela vantagens de conceitos alternativos

Waldorf, Montessori ou escola regular?

Há muitos anos, esta questão é um tema “clássico”, sendo avaliado e discutido por pais da classe média e da classe média alta. Diante da decisão de escolher uma escola para a formação dos filhos, o assunto pode se desdobrar em discussões infinitas. Hoje em dia, muitos filhos são pressionados por pais ambiciosos a mostrar desempenho. Tais exigências agravam a situação nas escolas, resultando num clima extremamente competitivo e agressivo, e isso ocorre entre crianças e adolescentes que crescem num ambiente protegido e privilegiado. Em contra partida, a preocupação com o bem-estar dos filhos aumentou. Nesse contexto, modelos escolares alternativos estão gradualmente em foco por serem considerados mais aptos a estimular o desenvolvimento das habilidades infantis sem causar o medo de competir ou falhar.

“Verdade ou mito?”

Heiner Barz, um pesquisador da área de educação da Heinrich-Heine-Universität em Düsseldorf, divulgou, em fevereiro de 2011, os primeiros resultados de sua pesquisa nacional sobre satisfação e experiências de aprendizagem de alunos Waldorf, comparando-as com escolas regulares. Oitocentos alunos Waldorf preencheram questionários e mais que 50 entrevistas individuais com pais e alunos (duração entre 2 e 3 horas) foram realizadas. Recentemente, o pesquisador apresentou para a imprensa os resultados finais em forma de livro, confirmando a primeira percepção dos resultados provisórios do ano passado.

Segundo a pesquisa, os alunos de escolas Waldorf (existe outra pesquisa independente sobre alunos Montessori) estudam com mais entusiasmo, sofrem menos com sintomas de estresse como dor de cabeça, dor de barriga ou distúrbio de sono, sentem-se menos entediados e frequentemente tem uma impressão mais positiva da escola e dos professores do que os alunos de escolas regulares. Em parte, as diferenças são significativas. Oitenta por cento dos alunos Waldorf afirmaram que sentem prazer em estudar – em comparação a 67 por cento das escolas regulares. Oitenta e cinco por cento dos alunos Waldorf consideram o clima escolar e a atmosfera de aprendizagem como agradável e sustentador – em comparação a 60 por cento do alunos das escolas regulares. Sessenta e cinco por cento dos alunos Waldorf afirmaram ter um bom relacionamento com o professor, mas somente 31 por cento dos alunos de escolas regulares disseram a mesma coisa. (Os dados obtidos dos alunos de escolas regulares se baseiam em outras pesquisas usando questionários semelhantes).

O desempenho em provas finais do ensino médio também mostra bons resultados. “Pelo que sei, não existe nenhum estado federal no qual os alunos Waldorf se saíam pior que outros”, diz Heinz Barz. A maioria deles termina o ensino médio.

Todavia, na divulgação provisória dos resultados da pesquisa, Barz destacou um fenômeno comum entre alunos Waldorf e outros: a tendência a necessitar de reforço escolar, como em matemática, línguas estrangeiras e na preparação para as provas finais do ensino médio.

Seja como for, para Andreas Schleicher, coordenador do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), o sucesso de aprendizagem nas escolas Waldorf ainda não foi apreendido de forma abrangente. Segundo ele, os resultados dos testes que a PISA realizou em escolas finlandesas bem-sucedidas, as quais adaptaram elementos da pedagogia Waldorf, mostrariam que as mesmas estimulam a aquisição de conhecimento baseada na realidade, ou seja, “naquilo que o mundo exige de nós”. Schleicher, que é contra as formas de “conhecimento instantâneo”, destaca como contraste uma forma de ensino cuja ênfase é “aplicar conhecimento de forma criativa, direcionando-o a soluções práticas em novas áreas”. Também menciona que alunos Waldorf se destacaram num estudo da PISA por “suas competências acima da média na área das ciências naturais”.

Texto original de Thomas Pany, publicado em TELEPOLIS, 27/09/2012
Tradução autorizada: Peter Hilgeland

Cercado Por Imbecis

Porque alguns de nós (inclusive eu) agimos como imbecis quando dirigimos? Caminhando numa calçada repleta de gente, não sinto a necessidade urgente de empurrar os pedestres ao meu redor, quando eles interditam meu caminho. (Tudo bem, às vezes eu sinto tal necessidade, mas eu não o faço). Na verdade, aprecio a experiência de caminhar em uma calçada urbana movimentada. Pode até ser agradável observar as pessoas e desfrutar das cenas e do ambiente sonoro de uma cidade, enquanto percorro meu trajeto de A a B.

No entanto, atrás do volante do carro, as coisas são diferentes. Quando dirigimos, não enxergamos os outros como pessoas. Nós os enxergamos como competidores numa corrida imaginária para lugar nenhum. Se alguém o ultrapassa ou o corta, você considera a ação como um ataque pessoal ao seu caráter e à sua liberdade. A resposta será imediata e desproporcional. Isso sem mencionar pedestres e ciclistas. Eles são vistos como cidadãos de segunda classe, não parecem aptos o suficiente para dirigir um carro e são tratados como meros obstáculos. O ambiente percebido ao redor dos motoristas, e até a cidade em si, desaparece na obscuridade e se torna apenas uma distração na reta final de uma corrida frenética.

"Os Imbecis e EU!" (Fonte: progressivetransit.wordpress.com)

É impressionante (até assustador) como o carro, sendo o nosso meio preferido de transporte, é capaz de causar efeitos tão profundos em nossas personalidades. Há muitos motivos psicológicos para isso:

– Duas toneladas de aço nos fazem sentir mais seguros do que realmente somos.

– Não enxergamos as pessoas que conduzem os outros carros, nós as percebemos como objetos inanimados.

– Não somos capazes de nos comunicar. Nós, seres humanos, os criadores da língua moderna, da literatura, da filosofia e da ciência, estamos sendo reduzidos a resmungos e gestos a partir do momento em que entramos num carro. O som da buzina pode significar “desculpe” ou “sai da frente, seu FDP !!!”.

– Nós enlouquecemos com o poder. Consigo atingir uma velocidade de 100 km/h em poucos segundos, mas “a fera” fica presa em congestionamentos que impedem a sua libertação. Como os ambientalistas, ciclistas e outros ousam limitar a minha liberdade a 60, 100 ou 120 km/h?

– Nós nos sentimos desconectados da nossa cidade. Dirigimos de A a B e só estamos aqui por causa das ruas. Toda aquela tralha (semáforos, faixas de pedestre, crianças, ciclistas, animais) atrapalha e precisa sair do caminho.

Tal comportamento não nos leva a lugar algum. Como podemos aprender a cooperar, se a presença de outros cidadãos nos irrita tanto? Como criamos comunidades no espaço urbano, se há tanto ódio fluindo pelas veias das nossas cidades? Mas não recrimino os motoristas por esbravejarem. Quando não existem outras opções para o transporte, eles parecem presos na armadilha da direção.

Texto original de Derek Edwards: “Surrounded By Jerks”, em Progressive Transit.
Tradução: Peter Hilgeland

A fim de diminuir a pressão, o autor deste texto resolveu morar próximo ao seu local de trabalho e aumentou o uso da bicicleta como meio de transporte. Resultado: ele dirige menos, mas quando usa o carro, sente-se mais tolerante em relação aos outros e é capaz de enfrentar um engarrafamento com dignidade.

Post Scriptum (25.05.2013)
Acabei de achar um outro texto que trata do mesmo assunto, o foco é “mais amplo”, é um ótimo complemento do post acima: “O trânsito, uma metáfora da vida”, do blog de Leo Rossatto.

Por falar em “Deus”

De Paul Tillich, “Über die Tiefe”
Tradução: Peter Hilgeland

Todas as coisas visíveis possuem uma superfície. A superfície é aquela face que percebemos à primeira vista. Quando as vemos reconhecemos aquilo que elas parecem de ser. Porém, se nos orientamos a partir do que as coisas ou os seres humanos parecem de ser, nós nos decepcionamos. Nossas esperanças serão aniquiladas. Por isso, tentamos penetrar a superfície, ir além das camadas exteriores, para podermos reconhecer as coisas como elas realmente são. Por que os seres humanos sempre estão em busca da verdade? Eles a buscam pelo fato de que aquela “verdade” que não as decepciona se encontra embaixo das camadas da superfície, na profundidade. É por isso que o ser humano começou [pelos meios da meditação, da filosofia, da ciência, e outros] a desvendar camada por camada.

Um nome, ou seja, uma palavra que descreve esta profundidade infinita e inesgotável é “Deus”. Eis o verdadeiro significado de “Seu” nome. Portanto, se esta palavra faz pouco sentido pra você, traduza-a, use expressões diferentes como “o sentido da minha vida”, “a origem da minha existência”, “aquilo que afeta a minha vida de forma imediata”, “aquilo que levo a sério, sem dúvida alguma” e assim por diante. Aliás, se você fizer isso, provavelmente precisará esquecer muita coisa que você aprendeu sobre “Deus”, talvez até a palavra em si. Pois, se você reconhece que uma palavra como “Deus” significa profundidade, você consequentemente sabe algo sobre “Ele” [ou “aquilo”, a despeito do nome que escolher].

Neste caso, você não poderá se intitular “ateu” ou “descrente”, pois não será mais capaz de pensar ou dizer: “A vida não faz sentido, a vida é fútil, a (minha) existência em si é mera superfície”. Só se você pudesse falar de si mesmo nesses termos, com plena sinceridade, você seria um “ateu de verdade”.

Conhecer a profundidade significa conhecer [algo de] “Deus”.

Árvores na neve

Pois somos como troncos de árvores na neve.
Como parece, apenas estão deitados na superfície escorregadia,
e um pequeno empurrão deveria deslocá-los.
Não, não é possível fazer isso porque eles estão firmemente unidos a terra.
Mas, veja, até isto é mera aparência.

Denn wir sind wie Baumstämme im Schnee.
Scheinbar liegen sie glatt auf,
und mit einem kleinen Anstoß sollte man sie wegschieben können.
Nein, das kann man nicht, denn sie sind fest mit dem Boden verbunden.
Aber sieh, sogar das ist nur scheinbar.

Franz Kafka, “Die Bäume”
Aus: “Die Erzählungen – Originalfassung”, Fischer Taschenbuch Verlag GmbH
Tradução: Peter Hilgeland

Provérbios Alemães

A arrogância vem antes da queda.
Hochmut kommt vor dem Fall.

A confiança é boa, mas o controle é melhor.
Vertrauen ist gut, Kontrolle ist besser.

A velhice não protege da tolice.
Alter schützt vor Torheit nicht.

Ações em vez das palavras.
Taten statt Worte.

Amanhã, amanhã, mas não hoje, é o que todas as pessoas preguiçosas dizem.
Morgen, morgen, nur nicht heute, sagen alle faulen Leute.

As mentiras têm pernas curtas.
Lügen haben kurze Beine.

As vassouras novas varrem bem.
Neue Besen kehren gut.

Até uma galinha cega encontra um grão de vez em quando.
Ein blindes Huhn findet auch mal ein Korn.

Com tais amigos, ninguém necessita de inimigos.
Bei solchen Freunden braucht man keine Feinde.

Deve-se forjar o ferro enquanto estiver quente.
Man soll das Eisen schmieden, solange es heiß ist.

Língua alemã, língua difícil.
Deutsche Sprache, schwere Sprache.

Na noite todos os gatos são cinzentos.
Bei Nacht sind alle Katzen grau.

Não se deve elogiar o dia antes da noite.
Man soll den Tag nicht vor dem Abend loben.

O último é mordido pelos cães.
Den letzten beißen die Hunde.

Os fazendeiros mais burros colhem as batatas maiores.
Die dümmsten Bauern ernten die größten Kartoffeln.

Outros países, outros costumes.
Andere Länder, andere Sitten.

Quando dois brigam, o terceiro se alegra.
Wenn zwei sich streiten, freut sich der Dritte.

Quatro olhos vêem mais que dois.
Vier Augen sehen mehr als zwei.

Quem não honra o centavo, não vale nenhum Táler.
Wer den Pfennig nicht ehrt, ist des Thalers nicht wert.

Tentar vale mais a pena do que estudar.
Probieren geht über studieren.

Todo começo é difícil.
Aller Anfang ist schwer.

Um desastre vem raramente sozinho.
Ein Unglück kommt selten allein.

Um homem – uma palavra, uma mulher – um dicionário.
Ein Mann – ein Wort, eine Frau – ein Wörterbuch.

O pardal na mão é melhor do que o pombo no telhado.
Der Spatz in der Hand ist besser als die Taube auf dem Dach.

Uma andorinha ainda não faz o verão.
Eine Schwalbe macht noch keinen Sommer.

Continua!
Wird fortgesetzt!

Tirem as mãos!

Estimados editores, diretores de TV, criadores de eventos, gerentes de shoppings! Estimados planejadores de parques temáticos, paradas gay, exposições e de qualquer outro tipo de nonsense. Tirem as mãos do nosso tédio! É a última janela do nosso ego, de onde ainda podemos observar o mundo sem sermos perturbados, sem sermos controlados. Parem de se apresentar a nós. Parem de criar algo para nós. Não nos digam mais o que queremos. Afastam-se; não mandem cortesias e não nos entreguem questionários. Parem de nos entrevistar, de nos filmar, deixem-nos em paz. Deixem-nos ociosos, pois a ociosidade significa liberdade. E contentem-se com o fato de que, às vezes, não queremos contar o que nos interessa a vocês.

Trecho do discurso de Wilhelm Genazino, após de receber o Georg-Büchner-Preis, em 2004.

Tradução: Peter Hilgeland