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Cercado Por Imbecis

Porque alguns de nós (inclusive eu) agimos como imbecis quando dirigimos? Caminhando numa calçada repleta de gente, não sinto a necessidade urgente de empurrar os pedestres ao meu redor, quando eles interditam meu caminho. (Tudo bem, às vezes eu sinto tal necessidade, mas eu não o faço). Na verdade, aprecio a experiência de caminhar em uma calçada urbana movimentada. Pode até ser agradável observar as pessoas e desfrutar das cenas e do ambiente sonoro de uma cidade, enquanto percorro meu trajeto de A a B.

No entanto, atrás do volante do carro, as coisas são diferentes. Quando dirigimos, não enxergamos os outros como pessoas. Nós os enxergamos como competidores numa corrida imaginária para lugar nenhum. Se alguém o ultrapassa ou o corta, você considera a ação como um ataque pessoal ao seu caráter e à sua liberdade. A resposta será imediata e desproporcional. Isso sem mencionar pedestres e ciclistas. Eles são vistos como cidadãos de segunda classe, não parecem aptos o suficiente para dirigir um carro e são tratados como meros obstáculos. O ambiente percebido ao redor dos motoristas, e até a cidade em si, desaparece na obscuridade e se torna apenas uma distração na reta final de uma corrida frenética.

"Os Imbecis e EU!" (Fonte: progressivetransit.wordpress.com)

É impressionante (até assustador) como o carro, sendo o nosso meio preferido de transporte, é capaz de causar efeitos tão profundos em nossas personalidades. Há muitos motivos psicológicos para isso:

– Duas toneladas de aço nos fazem sentir mais seguros do que realmente somos.

– Não enxergamos as pessoas que conduzem os outros carros, nós as percebemos como objetos inanimados.

– Não somos capazes de nos comunicar. Nós, seres humanos, os criadores da língua moderna, da literatura, da filosofia e da ciência, estamos sendo reduzidos a resmungos e gestos a partir do momento em que entramos num carro. O som da buzina pode significar “desculpe” ou “sai da frente, seu FDP !!!”.

– Nós enlouquecemos com o poder. Consigo atingir uma velocidade de 100 km/h em poucos segundos, mas “a fera” fica presa em congestionamentos que impedem a sua libertação. Como os ambientalistas, ciclistas e outros ousam limitar a minha liberdade a 60, 100 ou 120 km/h?

– Nós nos sentimos desconectados da nossa cidade. Dirigimos de A a B e só estamos aqui por causa das ruas. Toda aquela tralha (semáforos, faixas de pedestre, crianças, ciclistas, animais) atrapalha e precisa sair do caminho.

Tal comportamento não nos leva a lugar algum. Como podemos aprender a cooperar, se a presença de outros cidadãos nos irrita tanto? Como criamos comunidades no espaço urbano, se há tanto ódio fluindo pelas veias das nossas cidades? Mas não recrimino os motoristas por esbravejarem. Quando não existem outras opções para o transporte, eles parecem presos na armadilha da direção.

Texto original de Derek Edwards: “Surrounded By Jerks”, em Progressive Transit.
Tradução: Peter Hilgeland

A fim de diminuir a pressão, o autor deste texto resolveu morar próximo ao seu local de trabalho e aumentou o uso da bicicleta como meio de transporte. Resultado: ele dirige menos, mas quando usa o carro, sente-se mais tolerante em relação aos outros e é capaz de enfrentar um engarrafamento com dignidade.

Post Scriptum (25.05.2013)
Acabei de achar um outro texto que trata do mesmo assunto, o foco é “mais amplo”, é um ótimo complemento do post acima: “O trânsito, uma metáfora da vida”, do blog de Leo Rossatto.

Sobre fumantes e motoristas

Faz um mês que a Lei Antifumo entrou em vigor e preciso dizer que me surpreendeu o rigor com o qual a nova regra está sendo cumprida desde o primeiro dia. Sumiram os cinzeiros nas entradas dos prédios. Hoje o cinzeiro é considerado repulsivo em restaurantes. Não pode. Acabou. Uma nova espécie de fiscal surgiu, meramente do nada, para observar o comportamento dos donos de bares e de seus clientes nas grandes cidades. É uma lei rígida, que exige espaços limpos e um comportamento adequado por parte dos usuários da nicotina. Lá fora na rua, você encontrará os refugiados perambulando pelo calçadão, indo de um lado para o outro, confraternizando-se ou simplesmente sem rumo até ao momento em que a bituca cai no chão, ou seja, no esgoto. Pontos de ônibus viraram uma twilight-zone para os viciados e por assim vai. O clima social não está a favor deles.

Com a vergonha acesa na mão, é melhor se afastar do mundo ao seu redor, dos saudáveis, das pessoas de bom senso e mente clara – dos crentes e esportistas, dos empresários e funcionários dos tempos modernos da nova época. Daqueles que não rejeitam a caipirinha, as cervejas geladinhas e os bons vinhos no final da semana, os remédios para qualquer mal ou a formulazinha para aliviar o mal-estar. Hipocrisia e uma forma pós-moderna de puritanismo fazem parte da história. Aliás, parece que estou me desviando do assunto. E, sem dúvida, fumar prejudica a saúde. Seja como for, parece que as leis podem funcionar sim. Até mesmo no Brasil.

Agora aguardo que outras leis já existentes sejam fiscalizadas e respeitadas com o mesmo rigor.

As leis do trânsito, por exemplo. Ignorar pedestres (ou ciclistas) não é um delito de cavaleiro, mas uma ameaça ao bem-estar físico. O transporte motorizado, chamado „carro“, é uma arma potente nas mãos de uma pessoa arrogante ou desprovida de conhecimento. Ela pode ser um não fumante, mas, mesmo assim, continua representando um perigo para a convivência social e a saúde pública. Ela está praticando um comportamento anti-social todos os dias. Ela pode, pois não há quas nenhuma fiscalização. É possível concluir, portanto, que o clima social está a favor dela? Isso sem mencionar as emissões de gáz tóxico que tal veículo joga no ar. Que seja um carrão com alta potência para mostrar quem tal motorista gostaria de ser. Embora seja útil, o carro fede. Quem já olhou o horizonte de São Paulo num dia límpido sabe do que estou falando. Tudo isso ocorre, é claro, em nome do progresso. Resumindo: tal motorista não precisa ser um fumante para causar danos sociais. Basta beber antes de dirigir ou praticar outras modalidades de irresponsabilidade que podem resultar em coação, lesão corporal ou homicídio culposo.

O modesto escritor adverte: „Babacas atrás dos volantes prejudicam a saúde“.