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Sobre cães e seres humanos …

Deve ter sido por causa do “ambiente” (um pequeno parque na Vila Madalena), da minha boa vontade e – nem falar – do ótimo desempenho da adestradora que resolvi me afastar com meu parceiro canino daquela turma de cães terapeutas em sociabilização.

dudugramadoHavíamos concluído um curso de adestramento – eu e aquele cachorrinho jovem e inexperiente. Naquele dia, na praça, a atividade era voluntária. Seja como for, me afastei dos outros cães e dos outros donos então, algumas vezes, para ter uma “visão mais ampla” do encontro. Dei umas voltas, soltei o bicho (embora não tenha sido aconselhado por ninguém) quando achei adequado, arrisquei uma “experiência negativa”. Segui meus instintos, como dono diante de “cães desconhecidos”. Nesses momentos, enquanto meu protegé corria “feito louco” em círculos com outros companheiros da sua espécie (maiores e menores), ocorreu-me um insight, bem claro e de forma nítida:

– O ser humano não é perfeito. (Quem diria!)
– O cão perfeito também não existe. (De vez em quando, temos essa impressão, mas acho que não é o caso).
– A relação entre cão e dono é pessoal, há falhas sempre. Such is life. So what? É uma interdependência viva, que inclui riscos.
– A busca pela vida perfeita é uma tentativa constante de achar um ideal, como uma estrela, um ponto fixo, uma esperança; é algo que nos define como seres humanos, embora tal ideal nunca seja alcançado por inteiro. Mas não importa.

Quanto aos cães e aos donos: que o behaviorismo seja uma ferramenta necessária e útil mas não o sentido da vida.

Força de Vontade

A vida começa no final da sua zona de conforto.
Aprender um idioma também.

(A teacher´s impression reloaded).

Por falar em “Deus”

De Paul Tillich, “Über die Tiefe”
Tradução: Peter Hilgeland

Todas as coisas visíveis possuem uma superfície. A superfície é aquela face que percebemos à primeira vista. Quando as vemos reconhecemos aquilo que elas parecem de ser. Porém, se nos orientamos a partir do que as coisas ou os seres humanos parecem de ser, nós nos decepcionamos. Nossas esperanças serão aniquiladas. Por isso, tentamos penetrar a superfície, ir além das camadas exteriores, para podermos reconhecer as coisas como elas realmente são. Por que os seres humanos sempre estão em busca da verdade? Eles a buscam pelo fato de que aquela “verdade” que não as decepciona se encontra embaixo das camadas da superfície, na profundidade. É por isso que o ser humano começou [pelos meios da meditação, da filosofia, da ciência, e outros] a desvendar camada por camada.

Um nome, ou seja, uma palavra que descreve esta profundidade infinita e inesgotável é “Deus”. Eis o verdadeiro significado de “Seu” nome. Portanto, se esta palavra faz pouco sentido pra você, traduza-a, use expressões diferentes como “o sentido da minha vida”, “a origem da minha existência”, “aquilo que afeta a minha vida de forma imediata”, “aquilo que levo a sério, sem dúvida alguma” e assim por diante. Aliás, se você fizer isso, provavelmente precisará esquecer muita coisa que você aprendeu sobre “Deus”, talvez até a palavra em si. Pois, se você reconhece que uma palavra como “Deus” significa profundidade, você consequentemente sabe algo sobre “Ele” [ou “aquilo”, a despeito do nome que escolher].

Neste caso, você não poderá se intitular “ateu” ou “descrente”, pois não será mais capaz de pensar ou dizer: “A vida não faz sentido, a vida é fútil, a (minha) existência em si é mera superfície”. Só se você pudesse falar de si mesmo nesses termos, com plena sinceridade, você seria um “ateu de verdade”.

Conhecer a profundidade significa conhecer [algo de] “Deus”.

Na Eminência de Matar

Recentemente, a minha esposa se inscreveu num curso de escrita criativa. Hoje ela já me apresentou o resultado da primeira tarefa: “Escrever um texto sobre um assasínio na eminência de matar”.

Dicotomía

O dia amanheceu ensolarado. Os pássaros, a saltitar entre as árvores frondosas, celebravam aquele recomeço. Na cozinha do casarão à beira do lago, ela preparava o desjejum. Fatiou o pão. O café estava pronto. Inerte, encarou o líquido negro que se assemelhava a seu espírito.

Quantos anos haviam se passado? Uma infinidade sem sentido. Olhou para a faca de pão, cuja lâmina a atraiu. Poderia a morte criar vida? Ela precisava saber.

Fitou as águas plácidas do lago pela janela e, poderosa, caminhou em direção ao quarto. Conforme se movia, os raios de sol cintilavam na atraente lâmina, criando feixes coloridos no ar. Ela detinha o poder da vida e da morte. Tão logo adentrou o quarto, o brilho dançante se desfez sob a penumbra. O corpo moreno ressonava embaixo dos lençóis. Ela mirou a veia pulsante do pescoço e ergueu a faca.

Os lençóis manchados de sangue ela queimaria e o homem faria do lago sua morada eterna. Em breve, o tormento secular teria fim para dar lugar ao nascimento.

Autor: Paula D. A. Hilgeland, psicóloga (!)

Bom, o que posso dizer? Gostei do texto, realmente! E, enquanto o tema estiver no nível simbólico, não há motivo para se preocupar …

Visto ou vivido?

A “Festa da Lanterna” é um evento que ocorre uma vez por ano, em junho, na escola Waldorf que minha filha frequenta. É comemorada à noite pelas crianças do maternal e do jardim, acompanhadas dos professores. Os pais são convidados para assistirem à pequena cerimônia na quadra da escola. As luzes se apagam e as crianças entram em fila, cantando, cada uma com uma lanterna na mão, para se reunir. Enquanto isso, alguns professores acendem um fogo com tochas no centro da quadra.

Poderia, certamente, ser um momento inesquecível para todos os presentes e não apenas para as crianças.

Infelizmente, tal evento sofreu um distúrbio grave: uma tempestade de relâmpagos, causados pelas máquinas fotográficas de muitos pais, que “documentavam” a cerimônia inteira. Como pai, confesso que tal atitude me perturbou e até irritou. Que mania é essa tirar imagens de pequenas crianças carregando lanternas? Uma lanterna serve para iluminar os arredores e, neste caso, encantar os participantes. Em uma ocasião como esta, o flash de uma câmera é mais do que inconveniente: ele acaba com a intenção e o sentido da festa. Sem falar daqueles que, ao olhar através das lentes das suas máquinas, nem conseguiram desfrutar realmente daquele momento na vida dos seus filhos por estarem ocupados com seus brinquedos digitais.

Após armazenar arquivos e mais arquivos no disco rígido, qual é o resultado de tal esforço? Imagens de crianças iluminadas por luzes artificiais e não pelas lanternas que elas carregavam. A lembrança de um evento importante, reduzido à mera atividade digital como algo “visto” mas não “vivido”.

Mas que tipo de lembrança é essa?

P. S.

Todos querem ser famosos. Serem vistos, congelados, preservados pela mídia, porque nós passamos a acreditar no que é visto mais do que no que é vivido. De alguma forma nós entendemos tudo ao contrário e as imagens nos parecem mais reais para nós do que as experiências. Para confirmar que nós realmente existimos, que nós realmente importamos, temos que ver fantasmas de nós mesmos preservados em fotografias, em programas de televisão e videotapes, no olho do público.

E quando você sai de férias, o que você vê? Bandos de turistas com câmeras de vídeos grudadas em suas faces, como se estivessem tentando sugar o mundo real para dentro do mundo bi-dimensional das imagens, gastando seu “tempo livre” vendo o mundo através de uma pequena lente de vidro. Certamente, transformar tudo que você poderia experimentar com os cinco sentidos em informação gravada que você só pode observar à distância, de fora, oferece a ilusão de estar no controle da própria vida: você pode rebobiná-la e reprisá-la, mais de uma vez, até que tudo pareça ridículo.

Mas que tipo de vida é essa?

Trecho do livro Days of War, Nights of Love, achado no blog de Rafael Conter.

Critérios para escolher um amigo

Primeiro, ficar alegre com a minha alegria. Pessoas invejosas, críticas e destrutivas não nos ajudarão na nossa sanidade e dignidade.

Segundo, aceitar o meu “não”. Amigos controladores, que querem me submeter e não aceitam minha autonomia, vão atrapalhar meu equilíbrio emocional.

Terceiro me ajudar a conviver com minhas fraquezas em vez de estar o tempo todo me criticando. Amigos que se arvoram em ser meus educadores, terapeutas e guias espirituais acabam minando minha auto-estima e dificultando minha aceitação como pessoa humana, o que é essencial para minha felicidade.

Antonio Roberto Soares

E vice-versa: Não adianta esperar aquilo de um amigo sem poder cumprir o mesmo.

Linhas Cruzadas

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.

Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.

Não te procuraste, não me procuraste –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indeferentes, cruzamos.

Passavas com o fardo da vida …
Corrí ao teu encontro.
Sorrí. Falamos.

Esse dia ficou marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.

E, desde então, caminhamos
juntos pela vida …

Cora Coralina